segunda-feira, 25 de junho de 2012

Por que sou cristão?

Porque tenho fome de um Deus que não seja nem pura treva, nem eu mesmo, de um Ser que, embora intimamente parecido comigo, seja também tudo o que me falta.

Porque neste mundo quero abençoar tudo, sem nada divinizar.

Porque quero conservar ao mesmo tempo o olhar claro e o coração em chama.

Porque sinto que a aventura humana se dirige a algo diferente e melhor do que um desespero sem conteúdo, do que uma interrogação sem resposta, do que uma inércia vazia de sentido.

Porque quero conciliar a imensidade de amor que há em mim, com o desencanto tantas vezes provocado pela presença do homem.

Porque preciso de luz no mistério, e de mistério, na luz.

Porque quero ter, não só a força de construir e de viver, mas também a outra, que a transcende, de esperar, mesmo no desmoronamento e na morte.

Mas, se espero tudo, se creio tudo, como diz São Paulo, será apenas para tornar a vida mais suportável e para ser consolado? Sim. Também destas pequeninas necessidades pessoais se trata, quando nos sentimos ligados a todo o universo, responsáveis por todo o universo!

Na verdade, é a minha paixão do mundo que me faz cristão. É o meu respeito e a minha gratidão para com este destino que me sustenta e que se não identifica comigo.

Não me amo bastante, para escolher no céu um Deus conforme os meus desejos, mas amo bastante a vida, para não a julgar infinitamente bela, plena e justa, para não a confundir radicalmente com o Deus dos cristãos.

É como se vê, a transposição da aposta pascaliana, do sujeito para o objeto.

Fonte: "A escada de Jacob" - Editorial Aster - Colecção Éfeso

domingo, 17 de junho de 2012

EROTISMO CONTRA AMOR

A chamada civilização ocidental encontra-se completamente submersa num nevoeiro de erotismo, tão denso e tão insalubre como o fog londrino nos piores dias de outono.

Quer se trate de jornais, livros, espetáculos ou anúncios, encontra-se por toda a parte a mesma escalada do sexo (embora, na realidade conviesse mais falar de escorregamento), o mesmo desfile de narrações ou imagens eróticas, sempre tão fastidiosas --- dizia Camus --- como a leitura de um manual de bons costumes.

Esta invasão atinge um grau de variedade e de irrealismo que não tem paralelo em momento algum da História. Acode-nos imediatamente ao espírito a frase de Talleyrand: "Todos os exageros são insignificantes". A inflação traz consigo a desvalorização.

Não é em vão que se diz que a estupidez absoluta "desarma". Não se pode reagir senão com o riso. O riso purifica. e disse-se que no último dia a Eterna Sabedoria rirá.

Mas se o erotismo --- pelo que é em si --- não produz em nós mais que irrisão, aparece também como um terrível sinal de alarme no que respeita às realidades humanas, que esgota e desnaturaliza. Ao mesmo tempo que rimos perante a caricatura, choramos perante a forma mutilada.

E aqui, a forma é a sexualidae humana, que, longe de ser --- como nos animais --- uma faculdade quase autônoma e dirigida por uma finalidade invariável (acto sexual, procriação), apenas se exerce em função de uma interpretação e de uma orientação de que participam todos os restantes elementos da personalidade: afectividade, desejo de domínio, sentido estético e religioso, etc. O que eu condeno no erotismo é o facto de solicitar o mais superficial e baixo desses elementos, para desviar a sexualidade dos seus fins biológicos e espirituais, conseguindo degradar o homem completo, tornando-o escravo de um "sex-ídolo" simultâneamente desvitalizado e sem espírito. Em última análise, não se trata de cultivar o apetite carnal mas de prostituir o ideal na carne.

AMOR DOENTIO

O que é o erotismo? O termo, de origem muito recente, serve para designar hoje em dia tudo aquilo que nas palavras, textos e imagens faz referência à atracção dos sexos: frases, livros, canções, pinturas, fotografias, cinema... eróticos. Tudo o que implica complacência, deleitação do espírito nas coisas da carne: o Larousse registra as duas definições seguintes: "amor doentio" e "busca da sensualidade". Acrescentemos que se trata mais de uma sensualidade representada do que de uma sensualidade vivida; mais de uma obsessão do que de uma necessidade; de uma ficção enxertada numa realidade e que, como veremos adiante, tende a desnaturalizá-la e até a sustituir-se a ela.

ÍDOLOS E TABUS

Qual é a causa desta vaga de erotismo no mundo contemporâneo?

Pode pensar-se num fenómeno de rejeição exuberante, como reacção ao excesso de rigorismo das gerações precedentes. O Jansenismo e o Puritanismo, que reprovam como inconfessável, e coisa de que não podia falar-se tudo o que se referia às obras da carne, constituíram feitos inéditos na História. Como um gás demasiado comprimido, esta sexualidade a que se tinha negado o lugar na mente e na expressão, acabou por fazer estalar as barreiras e estendeu-se por toda a parte. E ao tabu sucedeu o ídolo...

Mas tudo o que existia de artificial e malsão no tabu comunicou-se ao ídolo. Assistimos a uma degenerescência  hipertrofiada da sexualidade: o erotismo moderno procede mais da excitação que do vigor, mais do cérebro e dos nervos que da carne e do sangue. E os seus extremos apresentam uma impotência básica para assumir normalmente a realidade sexual. A seexualidade introduz-se em toda a parte, na medidade em que se é incapaz de a exercer no lugar adequado. Invertendo a célebre frase de Pascal, um jovem filósofo canadiano, Jacques Dufresne, escreveu que a sexualidade "tem a circunferência em todas as partes e o centro em parte nenhuma".

A sexualidade gravita em torno de pois polos: o apetite carnal e o amor espiritual. O erotismo actual não tem nada a ver com um nem com o outro.

O EROTISMO, FLOR DE ESTUFA

Uma simples olhadela pela literatura e pelas representações eróticas basta para apreciar quão longe nos encontramos da louçania e da efervescência vitais. Com algumas exceções --- um Brassens, por exemplo, ou um Delteil --- as obras em que se expõem todas as intimidades carnais situam-se nos antípodas da sã galhardia de um Aristófanes ou de um Rabelais. A frialdade alia-se à obsecenidade, é a tranposição do strip-tease em tudo o que representa de malsão e calculado. Penso nalguns romances de inspiração psicanalítica ou existencialista, onde se expõem, num ambiente de conivência os tenebrosos bas-fonds da vida sexual. Quem seria capaz de falar de leveza ou de louçania? O que se desprende dessas folhas sem clorofila é um peso mortal de tédio: o que nos trazem à imaginação são esses fungos de inverno, acetinados, pegajosos que pululam à volta de um tronco velho apodrecido.

"PLAY-BOY" OU AS MONTRAS DO SEXO

O mesmo se passa com as imagens. Nas inúmeras publicações de tipo "Play-Boy" sobressai a habilidade dos "escaparatistas" do sexo. Corpos femininos generosamente desvestidos, mas adornados com um certo véu, de modo que --- por meio de uma sábia distribuição de exibição e mistério --- a subtil arte do "deshabillé" proporciona o aspecto picante do nu...; e tudo isso para provocar uma excitação fictícia que tem mais de prurido que de desejo.

Seria necessário analisar a importância desmedida que a imagem ganhou na vida psíquica --- consciênte e, sobretudo, inconsciente --- do homem contemporâneo. Não me refiro às imagens surgidas da fantasia de cada indivíduo, mas sim às imagens fabricadas em série por técnicos da informação e da propaganda. Essas imagens são, para muitos homens, como que o primeiro alimento que recebem da realidade, como que o ponto de vista a partir do qual apreciam essa realidade. Sente-se, julga-se, tem-se a atracção ou repulsa através de uma imagem. Não mais esquecerei a reflexão que fez um  modesto cidadão em Chamonix, ao contemplar o Monte Branco pela primeira vez: "Ah... Já vi isto na televisão".

UMA CIVILIZAÇÃO ARTIFICIAL

Se, como diz Platão no mito da Caverna, o mundo sensível não é mais do que um tecido de aparências, podemos dizer que avançamos um passo em direcção à realidade, e que vivemos entre sombras "ao quadrado" e reproduções de aparências. Em todos os campos, o homem moderno se converte em "voyeur" (emprego conscientemente esse termo, tirado do vocabulário erótico), na medida em que se alimenta de espectáculos --- raramente directos e quase sempre retransmitidos --- de  factos em que não pode participar efectivamente quer devido ao afastamento quer devido às suas possibilidades. Um "voyeur" da política, do desporto, da guerra, --- e até da natureza --- : estou a pensar nos inúmeros turistas para os quais a fotografia que podem fazer tem mais importância que a paisagem que podem contemplar. E não apenas as idéias (se se pode empregar este termo), mas também as sensações mais elementares, que são dirigidas e falsificadas pela imagem. Poder-se-ia falar do papel que desempenham a apresentação e a publicidade (flamantes etiquetas nas garrafas, "estrelas" nos restaurantes --- que símbolo para esta prostituição do astro na boca! ---) em matéria gastronómica. Sapiunt alieno ex ore: "só saboreiam pelo boca do vizinho", dizia o velho Lucrécio. Estamos condicionados pela imagem, inclusivamente perante o conteúdo do nosso prato ou do nosso corpo.

Esta intoxicação atinge o ponto culminante no erotismo. Voltamos a encontrar o clássico duo exibicionista --- "voyeur", dilatado e multiplicado até ao infinito, por meio do papel impresso e das imagens.

CONFUSÃO DE VALORES

Em que consiste o "voyeurisme"? Sabemos todos que a beleza física é ao mesmo tempo objecto de desejo e de contemplação. O desejo tende, naturalmente, para a posse, o que leva consigo a ampla utilização do sentido do tacto. Ao contrário, a contemplação refere-se apenas ao sentido da vista (o mais nobre, o mais parecido com o espírito, o Eros der Ferne, de Klages). Simone Weil define beleza como "um fruto que se olha sem estender a mão".

O "voyeurisme" procede da confusão destes dois valores. A vista converte-se em fornecedora do desejo: prostituiu-se e, em última análise, identifica-se com o tacto: não só se observa estendendo-se a mão, como o próprio olhar substitui a mão. Não há nada mais expressivo que o ditado popular "comer com os olhos". Neste ponto é que aparece a diferença entre o nu estético e o nu erótico: o primeiro é evocação da beleza, o segundo é provocação do desejo. De um desejo que quase sempre se consome no próprio olhar.

UMA DUPLA FRUSTRAÇÃO

Esta combinação bastarda desemboca numa dupla frustração: a que diz respeito ao aspecto contemplativo, visto que o olhar, ofuscado pelas emanações do desejo, não pode atingir o belo na sua pureza, e no que diz respeito ao aspecto sensual também, visto que o homem fica obcecado, até mesmo no exercício concreto da sexualidade, por uma nebulosa de imagens inacessíveis que se interpõem entre o seu desejo e o objecto possuído. A civilização da imagem democartriza o suplício de Tântalo. Quem está demasiado habituado a "comer com os olhos" perde ao mesmo tempo a pureza do olhar e o gozo da posse.É um facto provado que o erotismo e a insatisfação sexual andam juntos. Um psicólogo americano falava-me  recentemente dos homens impotentes e das mulheres "frias e desenfreadas".

Mas, como se explica o prodigioso êxito do erotismo? O sexo comercializado vende-se às mil maravilhas. Como é que se encontram tantos compradores? ...

Não basta invocar a potência bio-psicológica do apetite sexual, já que o erotismo se refere ao corpo apenas indirectamente e não traz nada ao espírito. É no clima interior e exterior em que o homem se encontra imerso que devemos buscar as razões deste êxito.

UMA CIVILIZAÇÃO DE "MIRONES"

Em primeiro lugar corresponde ao carácter artificial da nossa civilização. Em todos os ramos da nossa atividade (alimentação, trabalho, distração, deslocações, etc.), cada vez se multiplicam mais os "écrans" entre o homem e a  Natureza. O erotismo partilha deste movimento: a "boneca" descarnada do cinema ou o cartaz publicitário são um prolongamento de laranja envolvida em celofane, do vinho químico e da diversão dirigida. Existe também um parentesco com as drogas, cujo consumo não deixa de aumentar (as doenças terapêuticas estão na ordem do dia das preocupações médicas), desempenham, em relação à sexualidade normal, o papel de excitante e de sedante, visto que, por um lado, incentivam a "liberdade de costumes" e, por outro, (é o grande alibi invocado pelos "pornocratas"), acalmam a insatisfação sexual, desviando-a pelos caminhos aparentementes inofensivos do sonho.

Adapta-se também à atmosfera de facilidade que nos rodeia. O exercício normal da sexualidade implica sempre um mínimo de obstáculos e de responsabilidades, ao passo que a letra impressa e a imagem poder ser absorvidos sem esforço e sem continência. E toda a gente é convidada para este festim ilusório: "Tudo para todos", na medida em que tudo se reduz a nada. Uma vez que não tem duração real, a sexualidade imaginária não tem limites: tudo é possível, tudo é permitido no reino do sonho e da ficção. No mundo das imagens toda a gente é rei. Qualquer zé-ninguém encontra ao alcance das mãos --- melhor dito, dos olhos ---, material suficiente para construir, sonhando um harém tão opulento como o de Salomão. Consegue também a sua parte o instinto igualitário que domina a nossa época.

DEGRADAÇÃO DO INSTINTO RELIGIOSO

Mas há pior. Trata-se do desvio e da degradação do instinto religioso, do sentido do mistério e do sagrado, que desapareceram pràticamente deste nosso mundo utilitário. De facto, podemos falar de uma transcendência da sexualidade, a respeito do indivíduo: por isso existem afinidades entre o amor humano e o amor divino, tão longamente recordadas por tantos escritores místicos. Os amantes sentem vibrar uma promessa misteriosa na atracção que os inclina para o ser desconhecido e complementar: o seu amor baseia-se antes de mais na esperança de uma revelação. Os que são incapazes de receber esta revelação através do amor, procuram-na no erotismo. É a única saída para o desconhecido que resta a tantos dos nossos contemporâneos, cuja vida condicionada e sem cor se desenvolve sem aventuras e sem imprevistos à face da terra e sem esperança do céu. O erotismo dá-lhes a ilusão de que ultrapassam a sua mediocridade e dos seus limites. "O infinito à disposição dos cães fraldisqueiros", dizia Céline...

De outro modo torna-se impossível compreender esta magia do erotismo e a atracção que exercem todos os falsos mistérios, pululando em torno de um verdadeiro mistério esquecido e profanado. As "revelações" do erotismo referem-se ao corpo feminino e aos gestos --- normais ou aberrantes --- do amor carnal. Como se houvesse algum ineditismo em tudo isso! A literatura grega e os documentos da vida privada dos doze Césares esgotaram já o assunto. Onde encontrar, no meio de tantas antiguidades, o menor sinal de novidade? A "escalada do nu" é assunto de todos os tempos: como se se tratasse de um monte inacessível cujo cimo se perdesse na "nuvem do desconhecido"!

Mas --- di-lo-emos de novo ---, trata-se de um fenómeno sobre o qual a lógica e até a evidência não têm qualquer poder. Baudelaire via nele o indício do "animal religioso que se engana de ídolo". O erotismo é como uma janela falsa pintada na  parede, através da qual o mal-amante e o mal-amado tentam em vão fugir ao seu isolamento e ao seu tédio. E esta religião do sexo tem os seus deuses, os seus mistérios, os seus mediuns (os "monstros sagrados"), com a aviltante particularidade de qe o que não tem nome substitui o indizível.

UMA "RELIGIÃO" QUE SE CONSOME A SI MESMA

Falo já no passado, porque a religião do sexo começa a apresentar graves indícios de desgaste. Consome-se à medida que consegue liquidar o velho capital de proibições, de inibições e pseudo-mistérios amontoados pelas gerações precedentes, já que o seu prestígio provém disso mesmo. Mas além do pecado, o mesmo da ilusão, chega a insignificância do sexo. A miragem, ao desvanecer-se, deixa ao nu a imensidade estéril do deserto. O sexo entra assim no ciclo economia de consumo. A mulher eterna e a mulher fatal --- Beatriz e Circe --- dissipam-se simultâneamente. Apenas resta um passatempo, uma utilidade, um objecto de entretenimento. Presenciei recentemente, num lugar público, uma conversa entre dois  jovens varões. Falavam, alternando, de automóveis e de mulheres. O tom mal variava (em ambos os casos se tratava de  elegância de linhas, de "performances" técnicas). Embora houvesse um pouco mais de recolhimento ao falarem de carros. Na verdade, são mais caros e fazem correr mais riscos...

Os crescentes sobrelanços nos leilões (quem dá mais?) do erotismo aceleram esta queda. "Há que sacudir, seja por que preço for, a indiferença dos homens", li sob a caneta de um experimentado empresário de espectáculos licenciosos. Desconhecia que "empantorrar" de comida fosse um remédio para a falta de apetite...

Tal é o declive da idolatria. A exaltação do sexo leva directamente à desvalorização e ao desprezo pelo sexo. Não a esse desprezo polémico, de que os velhos ascetas se serviam como se fosse uma cura contra tentações demasiado fortes, mas ao desprezo indiferente dos "satisfeitos". O altar para os ídolos não é mais que a antecâmera do caixote do lixo e da cloaca.

O AMOR FRENTE AO EROTISMO

A conclusão depreende-se por contraste. O problema da saúde e do desenvolvimento sexual não se põem ao nível do sexo, mas ao nível do homem, quer dizer, da orientação que ele dá ao seu destino, e na qual o sexo não é mais do que um elemento. E a solução encontra-se no amor. Lembro-me da frase que Bismark disse à sua jovem esposa que se julgava ameaçada pela infidelidade: "Serias capaz de esquecer que me casei para te amar?" Este para implica muito mais liberdade que qualquer porque; sela, por uma exigência invariável do espírito, a promessa nascida da emoção fugida dos sentidos; traduz a "ardente paciência" do escultor que obtém uma estátua do material indeterminado que a imaginação e a carne proporcionam. O amor do par humano domestica a sexualidade: enxerta um laço singular e irredutível sobre esta força cega e anónima. O erotismo imita o anonimato da Natureza (há nada mais impessoal que o seu arsenal de fórmulas e de imagens?), desnaturalizando-o por meio dos artifícios do espírito.

Não há nada sagrado sem sacrifício, nem plenitude sem ascese. O amor dá sentido e finalidade ao sexo e ao mesmo tempo, impõe-lhe um limite. É impossível ir longe errando em todas as direcções: o caminho estreito é o único que conduz ao país sem fronteiras. O erotismo actua ao contrário: suprime aparentemente os limites da sexualidade e priva-a de sentido e de fim. É um beco sem saída disfarçado de terra prometida, onde os estropiados da sexualidade e os subdesenvolvidos do amor procuram uma evasão, encontrando ainda maior cativeiro.

Fonte: "Rumo - Revista de problemas actuais", Número 150, Agosto de 1969.

domingo, 20 de maio de 2012

En Marie le soleil de Dieu ne fait point d'ombre

Cette piété mariale, cette piété sensible dont je m'étais un peu méfié, je dois vou avouer que je l'ai retrouvée, un jour, je ne sais comment --- les grâces divines viennent comme elles veulent... l'Esprit souffle où il veut --- je l'ai retrouvée, dis-je, non plus dans la sensibilité, no plus dans l'imagination, mais comme une révélation, dans l'Intelligible, au-delà de l'Intelligible, dans le Sacré, au noyau même de l'Esprit, là où l'existence se noue à l'essence, dans ce monde inaltérable auquel nous participons tous un peu.

Ce fait prodigieux: La virginite maternelle

Eh bien! je voudrais vous dire deux mots simplement, deux paroles, que me semblent indiquer la valeur de Signe, la la valeur d'Exemple que représente pour toutes les époques, et en particulier pour notre époque, ce fait prodigieux de la Virginté maternelle. Ce sont des mots que nous prononçons très facilement, et nous ne voyons pas l'abîme qu'ils recouvrent. Deux grandes leçons d'éternité, paticulièrement adaptées à notre temps, faites pour notre temps, avec sa vaine et son impure agitation.

Marie, précisément Vierge et Mère! quelle leçon! quel signe! quel exemple!... Vierge, mais no stérile! Féconde, sans revers d'impureté! Intacte et jaillissante! une fontaine fermée, un vase scellé, comme dit l'Ecriture, d'où jaillit la source immortelle.

Trop souvent, ce qu'on appelle virginité s'accompagne de stérilité. Dans tous les domaines. Les champs de neige sous les étoilles sont magnifiques, mais rien n'y pousse, tandis que là où pousse quelque chose, trop souvent, il y a trop d'impuretés. La forêt sous les Tropiques est grouillant de vie, mais en même temps, grouillante d'impuretés. Il en est de même dans le domaine humain; il y a trop souvent une antithèse entre la pureté et ce qu'on appelle l'efficacité; trop souvent "ceux qui ont les mais pures, n'ont pas de mains!" comme disait Péguy qui le leur reprochait assez. Et ceux qui travaillent ont les mains sales!... c'est infiniment regrettable!

Seulement, tout cela n'est vrai qu'à un certain niveau. Plus on s'éleve, plus on va vers l'altitude, plus le choses qui, en bas étaient opposées, s'unissent, deviennent complémentaires. Quel était le poète qui, parlant de la Sainte Vierge disait: "O, toi, par qui s'unit en haut tout ce qui se sépare en bas!" C'est parfaitement vrai! En haut, la pureté et la fecondité, se rejoignent. La Virginité peut se communiquer, et se communiquer sans se dégrader, sans s'avilir, sans se souiller, un peu comme les rayons du soleil qui se posent, sans se salir, sur toutes les impuretés de la terre.

La Sainte Vierge nous offre l'exemple suprême, l'exemple absolu de cette synthèse. Cette virginité a donné Dieu au monde. C'est bien cela vraie efficacité... Il y a là, je crois, quelque chose d'essentiel. Sophocle disait déjà qu'il y a au fond des choses une adorable pureté. Si nous savons aller jusqu'à cette pureté qui est au fond des choses, si nous savons nous en imprégner, nous pourrons, même ici-bas, être efficaces, être utiles, être féconds sans dégrader notre idéal. Et sans avoir besoin pour agir d'admettre les compromissions, les impuretés, le tapage! Leçon prodigieuse pour l'activisme du siècle.

CE QUE LE SIECLE FAIT DE LA FEMME: UNE IDOLE, QUELQUE CHOSE D'EMPAILLE

Deuxième leçon (il y en aurait cent! mais je suis obligé de me résumer, je vous dis simplement quelques mots). Vous savez que notre siècle est un siècle d'érotisme, c'est le moins qu'on puisse dire!... d'adoration, en quelque sorte servile et stupide de la femme. Notre époque adore la femme, mais elle la dégrade en l'adorant, car il y a une forme d'adoration, qui est très voisine de l'insulte, qui d'ailleurs va très vers l'insulte. Quand l'adoration est déçue, elle détruit les idoles. Entre l'idolâtre et l'iconoclaste, il n'y a qu'un pas à franchir, et il est vite franchi en géneral!

Enfin, notre époque, en adorant la femme la dégrade en en faisant non seulement un objet de plaisir (ce que serait encore le moin mal, ou encore peut-être la chose moins impure, car le plaisir a tout de même d'étroites limites dans le temps et dans l'espace), mais elle en fait une espèce d'idole cérébrale, abstraite, qui imbibe toute l'imagination, qui flotte comme une espèce de vapeur dans l'atmosphère que nous respirons. Elle en fait une image de la femme qui n'a aucun rapport avec la femme, une image abstraite de la femme, une image irréelle. Toutes ces images de femmes, qui traînent partout, dans tous les journaux, sur toutes les affiches, partout, qui imbibent notre époque, avez-vous remarqué à quel point elles sont irréelles, à quel point elles se ressemblent toutes? Même allure, même ligne, même galbe, même sourire plus ou moins figé, tout à fait stéréotypé. C'est vraiment l'idole, quelque chose d'empaillé... et des jouets, n'est-ce pas?... des poupées!... oui, des poupées qu'on adore ou qu'on rejette, un pitoyable mélange de chair et de rêve, et l'amour est terriblement absent de ces jeux!...
Mais tout de même, il faut le reconnaître aussi, cette idolâtrie de la femme, si stupide qu'elle soit, comme toutes les idolâtries elle procède d'un sentiment profond dévié... Elle procède le l'intuition d'une réalité: La femme, porte de l'Absolu. La femme, source de la vie. Le Mythe antique des Mères. Tout cela représente quelque chose: l'idée que la femme nous rend à l'Origine, qu'elle nous rend au Principe, au Créateur, selon le mot de Lamartine, "Car l'homme éclos un jour d'un baiser de ta bouche, à jamais se souvient de sa première couche".

Il est bien certain que l'Homme cherche l'Absolu dans un être évidemment fragile et impur. Le seul bien de l'Eden qu'il ait emporté dans sa chute et dans son exil. Il n'a pas tort, certes, d'une certaine manière, mais il le cherche mal. Comme dans toutes les idolâtries, il cherche trop bas... Il ne remonte pas, jusqu'à la lumière qui nous a créés.

EN MARIE LE SOLEIL NE FAIT POINT D'OMBRE

Marie, elle, qui est en quelque sorte l'Archétype pur de la femme, elle nous attend au confluent de la femme et de la Lumière. Elle est la femme parfaitement transparente, toute baignée de lumière. Selon le mot admirable de Bérulle "En elle, le soleil de Dieu ne fait point d'ombre". C'est très beau une lumière sans ombre. Elle unit, dans ce sein qui a porté Dieu, l'étroite douceur des entrailles maternelles à l'Infini créateur du Verbe!... Il y a là un abîme!

Et ce mot de Médiatrice qui justement exprime parfaitement sa fonction de trait d'union entre notre origine terrestre et notre source divine. La femme en elle devient un pur chemin vers Dieu.

Malheureusement, l'homme, dans cet érotisme qui nous baigne partout demand trop: ce qu'il demande à la femme, c'est l'Eden. Il lui demand l'Eden sans le Ciel. Eh bien! ma foi, ce n'est plus possible. Victor Hugo dit quelque part, en parlant de la beauté féminine "C'est un tel idéal, mêlé d'un tel réel, que l'âme voit l'Eden et le préfère au Ciel!". C'est là, précisément, tout le drame de l'Homme, de préférer l'Eden au Ciel. Seulement --- il vaut autant que je vous le dise tout de suite --- il y a des utopistes (il y en a beaucoup dans notre société!) qui croient que l'Eden est une espèce de Chantier fermé pour cause de reconstruction. Je crois qu'un certain Eden est fermé définitivement. Oui! L'Eden étant fermé, c'est vers le ciel qu'il faut aller. Le Paradis terrestre, Dieu ne le donne pas, parce qu'il nous donne un bien infiniment plus précieux, et ce bien, c'est Lui-même, confié à une femme, pour être transmis à toute l'Humanité.

En d'autres termes, pour tout résumer, Eve est la porte condamnée de l'Eden, Marie est la porte ouverte du Ciel.

Je conclus: Telle est Marie, cette lumière, cette lumière de transfiguration qu'elle projette en quelque sorte sur la femme, et sur l'amour de la femme, est quelque chose de prodigieux; voilà l'exemple, voilà le modèle qu'on n'atteint pas, mais sur lequel nous devons toujours essayer de modeler notre action, notre pensée; le modèle éternel que nous devons essayer de reproduire. La femme doit respecter la Vierge en elle, et l'homme doit respecter la Vierge dans la Femme. Même dans la femme qui est femme, il y a an côte virginal qu'il ne doit jamais abolir; car en haut, dans le domaine du Sacré, la possession n'abolir pas la virginité.

C'EST TELLEMENT BEAU QUE C'EST SUREMENT VRAI

Mesdames et Messieurs, je parlais de cela un jour, à un incroyant, qui, très frappé, m'a dit: "C'est trop beau pour être vrai!" Eh bien, à cela je répondrai par le mot, je ne dis pas d'une "incroyante", car elle était chrétienne sans être catholique, si on peut dire, Simone Weil --- elle enseignait dans l'enseignement laïque, et n'avait pas à prende parti --- quand des élèves lui parlaient des dogmes catholiques et de leur plénitude, et lui demandaient: "Est-ce que c'est vrai?", elle répondait: "C'est tellement beau, que c'est sûrement vrai!". Et pourquoi, en effet, la réalité serait-elle laide? Le Beau est un transcendental comme le Vrai. Je crois qu'en haut le Vrai et le Beau doivent s'unir.

Et maintenant, Mesdames et Messieurs, je conclus: je voudrais que vous eyez senti un peu à travers mes trop faibles paroles, ce Mystère de Marie Médiatrice, ce lien entre la terre et le Ciel, cette porte du Ciel, cette étoile du matin, qui précède et qui annonce l'aurore.

Font:  Extrait de "L'Homme Nouveau", du 6 avril 1958

sexta-feira, 20 de abril de 2012

Lettre à Simone Weil sur l'Église

(...) Partout, et jusque dans cette société à l'âme divine qu'est l'Église --- je constate comme vous ce pharisaïsme, ce conformisme, ces fausses vertus et ces fausses gloires, tout ce mensonge du social menace en nous le fragile germe de la pureté divine. Et ce qui m'affecte le plus, ce n'est pas que ce mal soit réel et profond, c'est qu'il soit nécessaire, qu'il soit la rançon inévitable de la survivance d'une tradition sacrée, le ciment, non seulement de l'ordre et de la civilisation, mais de la maison même de Dieu et que, sans, lui, l'humanité verserait fatalement dans le chaos et la barbarie. Cette armure de conventions et de mensonges risque d'étouffer le germe divin et, en même temps, elle le protège. Il n'est pas possible de les dissocier que de séparer le bon grain de l'ivraie avant la moisson: ne forte eradicatis simul simul triticum. Dans l'Église comme ailleurs, le bien et le mal ne seront séparés qu'après la moisson, par Dieu, dans un autre monde. Ici-bas, ils sont indissolublement liés l'un à l'autre. C'est un scandale pour les faibles ou les demi-intelligents dont parle Pascal. Mais c'est une nécessité. Cela tient à la nature même de ce monde; une vie soumise à la durée et à la mort n'est pas concevable autrement: le mélange et la loi du temporel. Il faut bien que ce monde transitoire, où nous avons le double devoir d'accepter la vie tant qu'elle dure et de consentir à la mort quand elle vient, soit mêlé de bien et de mal. Car, s'il n'était que mal, comment consentirions-nous à vivre? Et s'il n'était que bien, comment nous résignerions-nous à mourir? Rien d'absolu ne peut exister dans ce qui passe, et c'est pourquoi, là où sont le bien et le mal purs, là aussi est l'éternité...

(...) Il est impossible à l'homme de vivre matériellement et spirituellement, il lui est même impossible de connaître et d'aimer Dieu sans le mensonge social. Toute révolte, toute anarchie mène à un nouveau conformisme, en général pire que celui qu'on a détruit (l'histoire moderne est assez éloquente à cet égard...). Il s'agit donc, non pas de rêver ou de poursuivre une pureté impossible, mais de reconnaître et de défendre la forme de société la moins impure: celle qui n'étouffe liberté, toute pureté intérieures; une gaine sociale avec des pores --- comme une peau --- par où le divin puisse pénetrer jusqu'aux âmes. Et c'est là qu'on mesure la nécessité et la bienfaisance de l'Église. Sans doute, en tant que société humaine, elle regorge de pharisaïsme et d'impuretés; elle fait encore trop belle la part de César, car ce qu'elle appelle Dieu n'est trop souvent que le masque de César, mais elle permet tout de même de rendre à Dieu un peu de ce qui est à Dieu. Hors d'elle, tout va à Cesar...

(...) Ce prodigieux édifice dont les fondements s'enfoncent dans les millénaires et dont le faîte se perd dans le ciel, cette oeuvre du temps qu'anime et couronne l'éternité, quels que soient ses recoins obscurs, ses parties caduques et ses ornements frivoles, je ne peux pas, je ne pourrai jamais refuser d'en voir l'équilibre profond et la grandeur unique et totale. C'est là, ce n'est que là que j'ai trouvé, enlacés comme deux amants, l'ordre et l'absolu qui, partout ailleurs, s'opposent et se dévorent. Les dogmes, les sacrements, la liturgie ont marqué mon âme d'une empreinte que rien ne pourra jamais effacer. Si (ce qu'à Dieu ne plaise!) je dois un jour me séparer de l'Église, ce sera au nom des exigences qu'elle aura fait naître en moi. Je pourrai la frapper avec mes mains, mais la force même de ces mains, je la tirerai de la nourriture qu'elle aura versée dans mes entrailles. Ma révolte sera toujours moins profonde que ma foi, et elle sera encore un acte de foi...

Fonte: "Gustave Thibon" - Les Dossiers H - Editions L'Age d'Homme, Lausanne, Suisse - 2012

segunda-feira, 26 de março de 2012

Aforisme

Pourquoi sommes-nous si sévères envers l'être aimé qui déçoit ou trahit? (alors que nous savons bien que nous ne valons pas mieux qui lui...) Précisément parce que nous lui demandions d'être en réalité ce que nous ne sommes qu'en rêve: véridique, désintéressé, fidèle, etc. --- Ce rêve incarné par un être qui ne fait qu'un avec nous étanche à bon compte notre soif de perfection et rachète, absout nos faiblesses: qu'importe notre misère puis-qu'elle est compensée par la richesse d'un autre nous-même? Celui comble notre égoïsme par sa cocilité et l'efface en même temps par des qualités que notre esprit possessif s'attribue spontanément! --- Aussi, quel désastre le jour de la déception: trahis dans notre volonté de puissance autant que dans notre désir de perfection, nous n'avons plus de tapis sous nos pieds,et plus d'étoile sur notre tête! Et tout l'univers s'écroule sur nous parce que nous n'avons jamais songé à construire sur le seul terrain qui nous appartienne: nous-mêmes. --- Toutes les fois que l'homme s'écrire: "Vertu, tu n'es qu'un nom!" c'est sur la misère des autres --- jamais sur la sienne --- qu'il s'exclame... (C. XXXVIII)

Fonte: "Aux ailes de la lettre" - Éditions du Rocher

domingo, 19 de fevereiro de 2012

Amor e fraqueza

A fraqueza mente quando fala de amor. Àquele que nada pode dar a si mesmo, ninguém lhe dará nada. Um homem só é capaz de dar e de receber na medida em que é capaz de se bastar. A sua capacidade de comunhão é prefigurada na sua capacidade de solidão.

Fonte: "O que Deus uniu" - Editorial Aster - Colecção Éfeso

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Réflexion

L´erreur individuelle, consciente, morale, est infiniment moins dangereuse que l´erreur généralisée, fondue, diluée, inconsciente, passée incognito dans les institutions, les coutumes, le climat. La plupart des aberrations morales conservent quelque chose d´accidentel, de curable, de révocable, tant qu´elles n´ont pas gâte le milieu humain. Mais quand l´âme de la Cité même est malade, l´individu est menacé, non plus seulement dans les parties supérieures de son être, mais dans son existence immédiate, dans son socle vital. Le "péché" devient proprement catasthophique quand il cesse d´être péché: quand il ne procède plus d´un choix individuel et délibéré, mais d´une conscience collective corrompue. Alors, il ne se borne plus à dégrader l´homme, il le détruit.


Ce mal socialisé, qui échappe (de toute l´etendue de ses infiltrations dans la vie et la nécessité) à la juridiction de l´esprit et de la morale, comment ne voit-on pas qu´il est absurde de vouloir le traiter uniquement sur le plan spirituel et moral? On méconnaît trop l´importance directe, pressante, tragique de certaines circonstances matérielles dont l´absence entraîne fatalement la ruine des plus hautes possibilités humaines. On se comporte commes des Amants de Venise qui attendraient de leurs seules conversations sidérales la conception d´une postérité! Pour l´homme du XXe siècle, saturé de superfluités, de vanités et "d´idéals", les problèmes d´ornementation de l´existence suffisent à effacer le problème de l´existence.

(C. IV.20.6.35)


Fonte: "Parodies et mirages ou La décadence d´un monde chrétien" - Editions du Rocher