quarta-feira, 7 de setembro de 2011

A desigualdade, factor de harmonia (III - Final)


Desigualdade e Harmonia


Ouçamos uma melodia. Cada nota ocupa lugar diferente na escala dos sons; todos os elementos musicais (até os próprios silêncios) são desiguais entre si, e, sem essa desigualdade, não teríamos melodia. E muito menos, se se suprimisse, entre os seus diversos elementos, aquela espécie de igualdade profunda que resulta da comunhão, da fusão na unidade do mesmo todo: nessa altura, não teríamos mais que um caos de sons.

Ora, esta dupla exigência de igualdade e desigualdade vamos reencontrá-la na escala da sociedade humana. À noção planificada de igualdade, importa substituir a noção profunda de harmonia. A única igualdade, real e desejável, entre os homens, não pode residir nem nas naturezas, nem nas funções; não pode ser senão igualdade de convergência. Assenta sobre a comunhão, e a comunhão não vai sem diferenças: os grãos de areia do deserto são todos idênticos e estranhos uns aos outros...

Em toda a harmonia, a interdependência corrige e coroa a desigualdade: as notas duma melodia ligam-se bem entre si, na unidade do conjunto, que, tomadas separadamente, ficariam sem alma nem função. Assim deveria ser na vida social. Não se dando a rasoira impossível e catastrófica da comunidade de deveres e privilégios, é necessário que exista, entre os homens, e sobretudo entre dirigentes e dirigidos, uma espécie de comunidade de destino. Os verdadeiros chefes são, para o povo, a cabeça, ao mesmo tempo, que dele são distintos e a ele unidos: a cabeça e o corpo vivem, sofrem e morrem juntos... Mas os maus mestres --- ainda que sejam, quase todos, ardentes igualitaristas, e que pretendam, com falsa e lisonjeira humildade, identificar-se com o povo --- são estranhos àqueles que dirigem, não servem de cabeça a ninguém, e toda a sua habilidade consiste em manejar, exteriormente, e para proveito pessoal, os reflexos dum corpo decapitado...

Assim, somos levados a formular a seguinte lei: a instituição é boa na medida em que favorecer esta salutar interdependência entre os membros da hierarquia social. Organizações como o sistema feudal e o sistema corporativo do antigo regime serviam para este fim; e se sucumbiram não foi por vício formal, mas por carência de pessoas. Pelo contrário, é evidente que os mitos sociais que dominaram o século XIX (capitalismo, sufrário universal, funcionarização dos cidadãos, etc.) são insalubres por princípio, poque atomizam os homens. Não é só de alguns retoques, mas de se refazerem, totalmente, que as instituições modernas têm necessidade.

Missão da França Cristã

É para nos causar horror o pensarmos nos abismos de miséria e corrupção que submergiriam os povos se, depois da febre e da hemorragia guerreira, nos encontrássemos colocados num clima moral e político, semelhante àquele que se seguiu à última guerra.

Esgotadas como estão, não é possível que as estruturas sociais de agora resistam, muito tempo, à crise que as abala, e que é obra sua. Não há ninguém que não esteja de acordo em prever e desejar, para breve, a eclosão dum novo mundo. E se esta espectativa for cumulada, podemos estar seguros que o génio e o coração francês para ele haverão de contribuir.

O povo francês possui, com efeito, em grau único, o duplo sentido da igualdade e da desigualdade. Não há outro tão individualista, tão rebelde ao espírito gregário: em França, observam-se, no que diz respeito às funções e precedências sociais, as desigualdades mais numerosas e subtis: somos o povo que apresenta o máximo de "distinção" (no duplo sentido da palavra) e, por consequência, o mínimo de igualdade. Mas somos, também, o povo em que a consciência da igualdade profunda entre os homens, se afirmou, quando saudável, com mais justiça, e quando corrompida, com maiores devastações. Depois do "quem te fez rei?" lançado, por um súbdito, à cara do primeiro dos Capetos, e desse "lodo comum" que Bossuet recordava aos grandes, tivemos, ai de nós! a terrível mística igualitária da Revolução Francesa...

Seguramos as duas pontas da cadeia, a nós pertence unir, em síntese harmoniosa, o espírito de desigualdade e o espírito de igualdade. em vão nos entregaríamos, agora, a antecipações fantasistas, se pretendêssemos o desenho exato da cidade futura. O que se pode prever, com certeza, é que ela não escapará à maré devoradora do materialismo, a não ser que vejamos renascer instituições aparentadas ao corporativismo, na ordem económica, e ao espírito da cavalaria e do sacerdócio, na ordem poítica. Sòmente tais instituições estarão à altura de refrear, eficazmente, o igualitarismo, substituindo à desigualdade material e qunantitativa, uma desigualdade voltada para a qualidade e para o espírito; ou, pelo menos, fazendo da primeira não já valor absoluto, mas, simplesmente, suporte ou instrumento da segunda. E, ao mesmo tempo, tais instituições trabalharão por restabelecer uma saudável igualdade, porque a matéria divide e o espírito unifica.

O nosso ideal rejeita, conjuntamente, tanto o igualitarismo que quer apagar as diferenças sociais, como aquela falsa mentalidade aristocrática que tenderia a endurecê-las em diferenças de essência (seria ridículo que o chefe desse em retorno o amor que lhe dedicam, lá dizia Aristóteles...) O ideal consiste em purificar e organizar as desigualdades, tem em vista uma igualdade mais profunda, ou melhor, em pôr a desigualdade ao serviço da unidade.

Mas que será essa unidade, senão o amor, e que será o amor, senão Deus? Através das desigualdades naturais e sociais, todos os homens sentem, obscuramente, que procedem da mesma origem e concorrem para o mesmo fim. O mau igualitarismo nasce do inteiriçamento egoísta desta intuição, que não é verdadeira senão na linha do amor: como todas as grandes aberrações do home, deriva da recusa da condição de criatura e da ambição de ser como Deus. A verdadeira igualdade é fruto de amor comum; pressupõe, portanto, o esquecimento e o dom de si mesmo. Mas, se cada um não pensar senão em si, se o inferior se congelar na inveja, e o superior no privilégio, que nome daremos à febre de igualdade que surgiu num mundo desses? Não é, então, mais que um pretexto ou estandarte nesta luta, tão antiga como o pecado, entre os pequenos deuses famintos que consideram injustiça absoluta, mas reparável, toda a limitação à sua vontade de gozo e de poder, que cada um quer possuir, só para si e em totalidade. É, de facto, uma lei fatal: os homens que se afastam do amor comum estão condenados ao ódio recíproco. E o espírito de igualdade procede, necessàriamente, de uma ou outra destas duas origens. Assim, não há estrutura social sólida sem ambiência religiosa. Só há um amor que é capaz de aproximar, eficazmente, os homens: o amor supremo. E todos os mitos, em nome dos quais se pretenderam unir os homens, com exclusão de Deus, multiplicaram a separação e a anarquia. Quem não ajunta comigo, dispersa...

A França não reencontrará a sua missão senão reencontrando o seu Deus. Ignorando esse Deus, a Revolução de 1789 o que fez foi desviar para o nada a grande idéia cristã de igualdade; o mundo espera, agora, uma revolução francesa cristã.

O igualitarismo ateu é maligno porque não tem outra saída, senão ir roendo, até ao nada, as diferenças humanas. Mas o igualitarismo cristão é saudável porque fundado sobre o ultrapassar, e não sobre o extinguir destas diferenças: prolonga-se até à sua origem e fins comuns, que são o amor eterno. E é assim que se realiza, na unidade deste amor, a síntese de igualdade e desigualdade.

Fonte: "Diagnósticos, Tratado de Fisiologia Social" - Livraria Cruz, Braga - 1962

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

A desigualdade, factor de harmonia (II)


Desigualdade orgânica e desigualdade anárquica


Não sei se o último soberano de Bizâncio, Constantino Dragases, que encontrou a morte nas muralhas da sua cidade, depois duma defesa heróica, seria entre os inumeráveis habitantes do Império, o mais digno do poder supremo; não sei, também, se o proprietário mais rico da minha aldeia, que trabalha, e faz trabalhar numerosos operários, "merece", de maneira especial, a sua riqueza. Mas sei, muito bem, que nem um nem outro gozam de privilégios artificiais: vejo-os no seu lugar, servindo para alguma coisa: o primeiro fazia o ofício de rei, o segundo o ofício de rico. Mas, se pelo contrário, penso em tal monarca moderno, que abandona o seu povo, depois de o ter exortado a lutar até à última gosta de sangue, ou em tal "felizardo" que ganhou a lotaria nacional, atolando-se no luxo e em prazeres imbecis, tenho a impressão muito nítida, de que estes dois homens foram objectos de um favor absurdo do destino; porque não estão no seu lugar, não servem para nada, não cumprem nenhuma obrigação...

Compreende-se: a desigualdade de situações e privilégios torna-se fictícia e injusta na medida em que já não corresponde à desigualdade das "missões", dos cargos e das responsabilidades. O rei que "deixe cair" o seu povo, e resida no estrangeiro, em palácios e casinos, onde a vida é fácil, é mau rei; o rico que não resgata a fortuna, quer por meio de iniciativas e benefícios, quer por meio daquela distinção e altura de sentimentos que a ociosidade por vezes favorece, é mau rico. Quando, não sei que senhor medieval, para explicar a diferença entre o nobre e o rústico, que, colocados ambos entre a morte e a vergonha, o rústico optaria pela vida e o nobre pela morte, definia, sumàriamente, o princípio da boa desigualdade: o risco ao lado do privilégio, o risco a equilibrar o privilégio... Infelizmente, a inclinação natural do egoísmo humano procura os privilégios sem riscos nem encargos. O que quer é subir, não como seria legítimo, para mais fàcilmente se dar, e se comprometer; mas para se safar com mais facilidade, para escapar a sarilhos.

Paradoxalmente, combina-se a sede de trepar, e o desejo de estar abrigado: quer-se estar tanto mais seguro, quanto mais alto, o que, precisamente, é absurdo. E as desigualdades, criadas por este estado de espírito, são anárquicas, por essência; como o prazer sexual, separado da função procriadora, não possuem nenhuma espécie de finalidade colectiva; assemelham-se a corpos estranhos no organismo social.

Este culto de falsa desigualdade, da ascensão sem mérito nem sacrifício, caminha, necessàriamente, a par com o culto do dinheiro. Na sociedade bem ordenada, a sorte pessoal dos chefes e dos poderosos está ligada à dos homens por eles governados, ou à dos bens por eles possuídos; o príncipe forma corpo com o seu povo, o senhor com a sua terra; a felicidade e a segurança destes homens dependem, em grande parte, da realização do seu dever social. O rico, pelo contrário, (enquanto possuidor de moeda anónima) não está solidarizado com nenhuma função precisa da cidade: seja qual for a sua abdicação ou a sua demisão dos deveres sociais, gozará em toda a parte, dos mesmos privilégios e da mesma segurança. Lembremo-nos dos reis exilados, dos financeiros cosmopolitas, ou até dos pequenos egoístas que vivem dos rendimentos...

A desigualdade artificial consiste, pois, antes de mais, na desigualdade financeira, sem base nem correctivo funcionais. A sociedade prova que está enferma na medida em que tende a fundamentar a hierarquia sobre a diferença morta das fortunas, em detrimento da diferença viva das funções. Esta tendência foi, como se sabe, o estigma indelével da sociedade capitalista...

Estas observações aplicam-se, não só a essa sociedade capitalista, mas também, à sociedade estatal: o funcionário, pago com a largueza e sem verdadeiras responsabilidades, goza de privilégios absolutamente tão artificiais como o proprietário de capitais anónimos. Ajuntemos, ainda, que os beneficiados pela falsa igualdade não são, necessàriamente, os que ocupam graus mais elevados da hierarquia social: sucede, assim, que quem lucra com a desarmonia colectiva são os "proletários".

Resumindo: para que a desigualdade seja legítima, não é necessário que se conforme pela diferença de valor pessoal, (o ideal, the right man in the right place, apresenta-se como uma assíntota...); basta que cada um exerça uma função orgânica que sirva o melhor possível, no seu lugar, o bem colectivo.

Origem de falsos igualitarismos

Permita-se-nos, agora, breve digressão psicológica pelas raízes deste terrível instinto de igualdade que perturba as sociedades.

O primeiro reflexo de igualitarismo este grito: "Porque não hei-de ser eu?" De que estado de alma brota o protesto? Tomemos um homem qualquer, que inveja a sorte de algum grande personagem e que diz: quem me dera no lugar dele! De que tem ele inveja neste destino superior? Será dos encargos, dos riscos, e até da austera alegria de servir? A maior parte das vezes, nem sequer pensa nisso... Ou serão, antes, o prestígio, a fortuna e todas as possibilidades de prazer e de repouso, que fazem corpo, no seu pensamento, com a situação da personagem invejada? A resposta é facílima... O instinto igualitário tem as mesmas origens que o instinto hedonista, é sinal da mesma decadência.

Com efeito, o hedonismo nasce do processo de desagregação afectiva, pela qual a sede de felicidade, natural a todos os homens, se separa da sede de agir, de se dar, de lutar, do arranque para a virtude, no sentido etimológico e mais amplo da palavra. No homem equilibrado, estes dois instintos encontram-se estreitamente ligados; a felicidade é coroa do esforço e do dom, e cresce em função da perfeição adquirida. O decadente, pelo contrário, não associa a ideia de felicidade à de perfeição e de ascensão; não conhece outra perfeição além do gozo e da segurança: Deus, para ele, não é pureza, mas felicidade e repouso. Assim, por pouco que se sinta inferiorizado na sua situação social, torna-se espontâneamente, igualitarista: nesta ordem de felicidade material e da recusa de servir, a única que existe para ele, diante dos privilégios sem missão, dos privilégios que permitem a demissão, o último dos homens pode, legitimamente, ambicionar os mais altos lugares. Diante do dinheiro, sobretudo: todos se sentem dignos de serem eleitos desta divindade anónima, todos se sentem capazes, enfim, de gozar e nada fazer! Não é aliás, por mero acaso que as épocas em que a primazia social é transferida para o dinheiro, sejam, também, aquelas em que lavra a pior febre igualitarista.

Mas estes operários que têm ciúmes da vida fácil do indolente frequentador de palácios, o velho camponês que a necessidade obriga ainda, para seu bem, a inclinar-se sobre a terra, e a quem a vazia ociosidade do vizinho aposentado, causa inveja, todos estes corações crispados num "porque não hei-de ser eu?" corrosivo, que invejam eles, na realidade, aos seus irmãos "privilegiados"? Por estranho que pareça, ambicionam o seu próprio nada! Dirigido para o privilégio sem deveres, para o pecado (porque a recusa de servir é a própria definição de pecado), o desejo de igualdade, torna-se o desejo do nada, vertigem de auto-degradação e de morte. Aqui residem o segredo e a lógica do "comunismo". Só há duas coisas absolutamente comuns a todos os homens: o nada original, o Deus que os criou. Se forem tão fracos, ou tão pecadores, que não consigam unir-se no culto de Deus, tenderão, sem remissão, para comungar neste nada. Mas não é ao nada, puro e simples, que vai dar o igualitarismo: o homem e a sociedade têm vida rija. Pecado capital contra a harmonia --- a qual não é mais que uma engrenagem de desigualdades, fundadas nas funções e deveres --- o igualitarismo gera o caos, ou, para dizer doutra maneira, substitui, no jogo das desigualdades orgânicas, um matagal de desigualdades, absurdas e esfomeadas, fruto da intriga e do acaso: de tudo o que há de menos humano no homem. É evidente, por exemplo, no dizer das testemunhas mais autorizadas, que o "comunismo" soviético, fundado, por direito, sobre a mais rígida igualdade, deu origem, de facto, às desigualdades mais revoltantes que a história jamais conheceu.

Continua . . .

domingo, 4 de setembro de 2011

A desigualdade, factor de harmonia (I)

A febre igualitária é um dos males mais profundos e mais graves da nossa época. Confessada, ou disfarçada, perturba, em todos os domínios, o equilíbrio da humanidade, e faz que embatam, entre si, numa competição sem saída, os indivíduos, as classes sociais e as nações. Por fim, chega-se a que qualquer um ache insuportável não ser igual a quem quer que seja, no que quer que for. O aventureiro aspira ao poder supremo; o "proletariado" pretende varrer as classes dominantes. Evidentemente, inventaram-se, para justificar esta doença vergonhosa, vocábulos cheios de grandeza: o pobre ataca o rico em nome do "direito à existência"; o tarado fisiológico que quer casar, desprezando todas as obrigações sociais, opõe, à sentença, o "direito ao amor". Mas todas estas palavras solenes não servem senão para tornar mais repugnantes a egoísta realidade que disfarçam.

Contudo, como todas as aberrações humanas, também estas aspirações insensatas têm algum fundamento no real. O igualitarismo --- considero esta definição capital --- representa a caricatura e a corrupção do sentido de harmonia e da unidade sociais. Portanto, qualquer crítica séria do igualitarismo implica um estudo preciso das condições desta harmonia e desta unidade. Não se consegue definir a doença, senão em função da saúde.

As desigualdades naturais e as desigualdades sociais

Se os homens são todos iguais, enquanto homens, encarnam, contudo, se assim me posso exprimir, em graus diversos, a essência humana. Basta comparar, entre si, indivíduos, povos, e raças, para verificar uma multidão quase infinita de desigualdades naturais. Os homens nascem desiguais, na saúde, na força física, na inteligência, na vontade, no amor, etc. Desigualdades que apresentam o carácter de necessidade absoluta: impossível escapar-lhes, ou remediá-las; e se são mal, são males incuráveis. Assim todos os espíritos sãos as admitem, não sòmente de facto, mas de direito.

A par destas desigualdades naturais entre os homens, observa-se a desigualdade nas funções e nos previlégios, inerentes à hierarquia social. Nem todos os homens têm a mesma categoria na cidade, pois nem todos são igualmente poderosos ou igualmente ricos... E aqui, impõe-se-nos uma observação fundamental: estas desigualdades sociais não estão decalcadas sobre as desigualdades naturais. É mesmo raro que os seres mais dotados pela natureza sejam os detentores do poder e da fortuna. Esta separação entre dons naturais e missão social, exprime-a muito bem a Escritura: "Vi além disso, que, debaixo do sol, a corrida não é ganha pelos ágeis, nem a guerra pelos valentes, nem o pão pelos sensatos, nem a riqueza pelos inteligentes, nem o favor pelos sábios, porque tudo depende, para eles, de tempo e circunstâncias". [Eclesiastes 9: 11 - No texto original, em francês, Thibon utiliza a Bíblia "Louis Segond, 1910"]

É fácil de ver que tal margem de contingência entre as capacidades naturais do homem e a sua posição social, inspirasse dúvidas sérias acerca da legitimidade de certas desigualdades. Que, entre dois homens, um seja forte e outro fraco, um inteligente e o outro estúpido, ninguém pode nada em contra. Mas que um seja príncipe e o outro plebeu, um rico e o outro miserável, instintivamente sentimos que tal diferença nada tem de fatal, e que, em muitos casos, a relação poder-se-ia revirar sem prejuízo. E assim, nova questão se levanta.

Problema da desigualdade artificial

Os espíritos simplistas têm tendência a considerar as desigualdades sociais como artificiais. A questão está em entender-se sobre o sentido desta última palavra. Se, por ela, se quer dizer que as diferenças sociais não se impõem, com aquele peso de necessidade primária e directa que caracteriza as diferenças naturais, e que são, em parte, obra do homem, como uma casa, um poema, um campo cultivado, etc., estamos de acordo. Mas, se artificial pretende significar fictício, irreal, e, por conseguinte, ilegítimo e digno de ser destruído, então, mais devagar. Porque a natureza humana implica a vida em sociedade, e a vida em sociedade é hierarquia e suas diferenças. O artificial das desigualdades sociais é natural em segundo grau: é produto espontâneo da natureza de um ser que é feito para criar e organizar.

Certamente, poderá retorquir o igualitarista. Mas o que eu denuncio como artificial não é o princípio das desigualdades sociais; é o facto de estas desigualdades repousarem, tão escassamente, em diferenças naturais. O que é injusto, e que é preciso destruir, é o estado social em que se observa tal divórcio entre as capacidades dos homens, por um lado, e a sua missão e privilégios, por outro.

O argumento não colhe. A diferença de situação social ou de fortuna, entre dois homens, não merece condenação pelo simples facto de não se apoiar numa desigualdade natural. Qualquer cidadão, bem dotado, pode sempre dizer, de si para si, com justiça, diante das faltas de tal monarca ou de tal financeiro: Porque não eu? Usaria melhor o poder ou a fortuna, do que aquele homem. Mas a resposta é fácil: que meio tem você para se apoderar deste poder ou desta fortuna? Já tem a receita infalível, capaz de levar, "automaticamente", os mais dignos ao cume da escala social? Se tem, então, as reinvidicações são legítimas... Rousseau assinalando, não sem razão, no Contrato Social, as falhas da hereditariedade, ajuntava que a democracia electiva confiaria o poder, quase que por necessidade, ao escol da nação. Mas ai! Basta olhar para os novos senhores que nos outorgou, desde há mais de um século, o sistema eleitoral, do qual se esperava a idade de oiro, para sabermos que o fosso entre as desigualdades humanas e as sociais não tende a diminuir. Os acasos do struggle for life revelaram-se mais desastrados ainda, do que os do sistema hereditário...

Seria, certamente, para desejar que a hierarquia social estivesse baseada na hierarquia natural. Mas, tal harmonia representa um ideal para o qual a boa sociedade deve tender incessantemente, sem esperar jamais realizá-lo plenamente. Se bastasse, para rejeitar qualquer sistema social, verificar que ele não trazia, forçosamente, os melhores para os primeiros lugares, todas as formas de sociedade deveriam ser eliminadas em bloco...

Contudo, ainda fica que os diversos sistemas sociais são desigualmente imperfeitos; e, feita justiça aos exageros igualitários, é certo que ainda temos muita artificialidade, no mau sentido da palavra, nas desigualdades sociais. E o problema ricocheteia, outra vez: que é uma desigualdade artificial?

Continua . . .

Fonte: "Diagnósticos, Tratado de Fisiologia Social" - Livraria Cruz, Braga - 1962

sábado, 13 de agosto de 2011

Apprendre et comprendre

Voici des hommes qui enseignent. Ils ne cherchent pas à deviner à quelles pensées, à quels sentiments peuvent correspondre, dans l'esprit de leurs disciples, les mots et les formules dont ils se servent; non, ils s'écoutent, ils ne parlent que pour eux-mêmes. Un tel "enseignement" ne peut être qu'un soliloque de l'éducateur, accompagné tout au plus d'un enregistrement automatique de la part du disciple.

L'enseignement vrai doit être pourtant un dialogue, et la première condition d'un dialogue, c'est de parler à l'autre et pour l'autre. Loin d'être une table rase à la manière d'un disque phonographique, l'espreit du disciple possède déjà un capital innombrable de sensations et d'idées, et la nouvelle richesse que lui apporte l'educateur n'aura de valeur pour lui que si elle vient s'ajouter à ce capital préexistant. Enseigner, c'est continuer: le maître ne peut pas faire de don efficace s'il ne tient pas compte de ce que le disciple posséde déjà; son oeuvre se borne alors à égarer l'esprit de celui-ci sur une multitude de routes dont aucune n'aboutit à rien, parce que, au lieu de s'ajouter l'une à l'autre, elles partent toutes de zéro.

Le problème de l'enseignement se raméne ainsi au problème de l'adaptation d'un savoir nouveau à un savoir antérieur: d'où, parallèlement au soin d'amasser pierre sur pierre, la nécessite constante de vérifier les fondements et de veiller sur les matériaux de liaison. Dans la construction éducative, c'est toujours le ciment qui manque le plus! Les pierres peuvent être belles et nombreuses, l'édifice n'en reste pas moins privé d'unité et terriblement fragile: c'est l'instruction sans la culture (j'appelle culture ce souffle impondérable de sagesse vivante qui relie et organise les données de l'instruction comme fait l'âme au corps). Édouard Herriot a, je crois, défini la culture comme "ce qui reste après qu'on a tout oublié", mais on pourrait l'appeler tout aussi bien "ce qui manque après qu'on a tout appris".

Fonte: "Retour au réel" - H. Lardanchet, 1943

sábado, 6 de agosto de 2011

Inconscience

Il semble que les poisons du diable aient décomposé non plus seulement la volonté, mais la substance des hommes... Quelle déconcertante naïveté, quel "bon-garçonisme" subsistaient dans les plus corrompus! Je songe à cet épisode extraordinaire tiré d'un évangile apocryphe: Jésus rencontrant un homme qui travaillait le jour du sabbat lui dit: "Si tu sais ce que tu fais, tu es sauvé, mais si tu ne le sais pas, tu es condamné." Tant que l'homme sait qu'il pèche et s'ágare, quelque chose en lui reste accessible á la verité: Dieu peut encore le saisir. Aujourd'hui, l'homme échappe de plus en plus au conflit intérieur, au déchirement, au remords. L'inconscience lui tient lieu de bonne conscience. Et, quoiqu'en dise saint Augustin. Celui qui nous a créés sans nous devra aussi nous sauver sans nous... (C.V. - 28.10.35)

Fonte: "Parodies et mirages ou la décadence d'un monde chrétien"
Éditions du Rocher, 2011

terça-feira, 26 de julho de 2011

O Um e o único

A unidade não é a confusão; a ruptura dos limites não arrasta consigo a abolição das diferenças. Tudo será distinto na eternidade, mas nada será separado. Eu serei eu mais profundamente que neste mundo, e tu serás tu; cada um será ele próprio, e todos juntos só farão um. Porque o Um não anula o único: fixa para sempre os traços irredutíveis dele e o retorno à unidade será a afirmação da diferença.

Porque a distinção e a unidade procedem do mesmo princípio (a Ideia, na linguagem de Platão, e a Forma na de Aristóteles) que confere a cada ser a sua diferença específica e individual, bem como a sua capacidade de comunhão. Estes dois atributos são inseparáveis: quanto mais a diferença se afirma, mais a capacidade de comunhão se alarga. Se seguirmos a escala que vai do mineral ao homem, veremos os seres tornarem-se cada vez mais originais e insubstituíveis e, correlativamente, mais susceptíveis de relação com o resto do mundo. No grau ínfimo, não há diferenças nem relações entre dois graõs de areia. No mais elevado, os seres diferenciam-se muito, mas estão abertos a tudo o que os cerca, pelo conhecimento e pelo amor. No vértice, Deus é ao mesmo tempo o mais distinto e o menos separado dos seres: a nada se assemelha (quis similis Deo?) e está em toda a parte.

A matéria, ao contrário, é o princípio da confusão e da separação. O seu carácter amorfo e indeterminado faz com que ela se possa dividir até ao infinito e que todas as suas partes sejam homogêneas.

Quereis exemplos? Duas pessoas que se amam são irredutíveis uma à outra e, ao mesmo tempo, inseparáveis no seu amor, ao passo que duas máquinas fabricadas em série são perfeitamente semelhantes e perfeitamente separadas: a sua diferença é puramente espacial e numérica. Comparai dois amantes unidos e dois automóveis do mesmo tipo: naqueles, a comunhão na diferença; nos últimos, a separação na identidade. Nada do que é complementar (isto é, feito para as unidades) é permutável e tudo o que não é permutável é necessariamente separado.

É infelizmente para a segunda fórmula --- a do indivíduo separado e impermutável --- que parece orientar-se a evolução das sociedades humanas. O nivelamento universal, anulando as diferenças entre os homens, anula também a verdadeira unidade social, mas cria, ao mesmo tempo, dado que a morte é infinitamente mais dócil e maleável que a vida, mil possibilidades de unidade fictícia, rápida e transformável; a que impõe a homens esvaziados de alma e de liberdade o jugo da força brutal, ou a influência apenas mais subtil da propaganda.

Fonte: "O olhar que se esquiva à luz" - Livraria Figueirinhas - Porto, 1957

quarta-feira, 13 de julho de 2011

La sagesse et la grâce

La sagesse suffit à me persuader de mon néant. Mais la grâce seule peut me donner la force d'agir, sachant que je ne suis rien, avec autant d'énergie que si j'avais l'illusion d'être quelque chose. Après avoir expulsé l'orgueil et tous ses mirages, elle le remplace par une présence sacrée --- la sienne --- qui nous rend en eau du ciel et de source tout le contenu de la citerne vidée. Car le sage est vide de lui-même, mais le saint est plein de Dieu.

Oui, la sagesse humaine suffit à nous vider de nous-mêmes et, dans ce sens, les stöiques ne nous trompent pas: la froide contemplation du point infinitésimal que j'occupe dans l'espace et dans le temps, le parallèle impartial entre ma personne et ces millions d'êtres humains qui, avant moi, sont nés par hasard et sont morts en vain, le retour lucide sur mon passé où de si brefs intervalles séparent la flamme de la cendre et la conception de l'avortement --- tout cela --- qui ne dépend que de la direction et de la loyauté de mon regard, c'est-à-dire de moi-même --- est plus que suffisant pour me vider de ce sang impur qui nourrit "l'orgueil de la vie". La grâce provoque la même hémorrragie. mais elle opère em même temps une transfusion de sang divin: {jam non ego vivo, Christus in me vivit}. --- Et là je ne peux que recevoir passivement. Pour saisir concrètement la différence, comparons l'humilité exsangue d'un Marc Aurèle qui repose sur la conviction philosophique du néant de tout ce qui passe et l'humilité brûlante et radieuse d'un François d' Assise ou d'un Jean de la Croix qu'alimente le don gratuit d'une vie surnaturelle.

Le danger pour les chrétiens --- et Gide l'a perçu clairement en analysant l'état d'âme de ses amis convertis --- c'est que l'hémorragie humaine et la transfusion divine soient l'une et l'autre incomplètes, de sorte que le mélange de l'ancien et du nouveau sang confère aux passion du vieil homme une espèce de justification surnaturelle qui les fait sortir de leurs orbites. Là où la grâce n'a pu éliminer le moi, elle le dilate sans mesure. Il n'y a qu'un pas entre cette constatation vraie: Dieu habite en moi, et cette prétention délirante: tout ce qui est en moi est divin. Et par-là, le saint manqué se situe très au-dessus du stöicien réussi. D'où il faut conclure --- sauf peut-être pour les âmes naturellement très pures --- à la nécessité d'une alliance entre la sagesse et la grâce.

Fonte: L'ignorance étoilée - Fayard