domingo, 21 de fevereiro de 2010

Problema da ingratidão

Um miserável grita por mim: acudo ao seu apelo e ajudo-o o melhor que posso, enquanto outros, à nossa volta, permanecem surdos aos seus rogos. Resultado: o miserável esquecerá os que o repeliram e a mim, que fiz o que podia, mais tarde ou mais cedo, passará a odiar-me. Essa escandalosa mudança é, no entanto, tão lógica! Este desgraçado, desde o meu primeiro favor, agarrou-se-me com toda a sua impossível esperança, com toda a sua necessidade infinita de receber (não é verdade que é próprio de quem nada possui esperar tudo dos outros?) e eu, que tenho a alma cheia já de tantos deveres e afeições, não pude corresponder com toda a minha força de dar. Ocupo toda a sua atenção e ele não ocupa toda a minha piedade: a balança não mantém o equilíbrio. E fatalmente virá um dia em que já o não poderei satisfazer: então, a sua fome mais aguçada do que apaziguada pelos meus primeiros favores, a sua fome incurável de pobre, trocar-se-á em aversão por mim e odiar-me-á com toda a força da sua esperança ludibriada, enquanto que já há muito terá deixado de pensar naqueles que, pela sua dureza inicial, não criaram nele este apelo no vazio.

Essa ingratidão é uma compensação absolutamente normal, de ordem quase física, regida pelas leis da gravidade, e que exige ser-se santo para lhe poder escapar. Simone Weil põe o problema da santidade nestes termos: Como escapar àquilo que em nós se assemelha à gravidade?

Fonte: "O pão de cada dia"- Editorial Aster - Colecção Éfeso

sábado, 20 de fevereiro de 2010

Optimisme ou pessimisme?

J'ai parlé, la semaine dernière (24 septembre), de la part du mal dans le monde.

L'autre jour, à New-York, après un exposé sur ce problème, un auditeur m'a demandé à brûle-pour-point: "Finalement, êtes-vous optimiste ou pessimiste?"

J'ai répondu que cette question n'avait aucun sens et qu'il ne s'agissait pas d'être optimiste ou pessimiste a priori, mais de voir le bien ou le mal là où ils sont et tels qu'ils sont et surtout de travailler à vaincre le mal par le bien.

Car il y a un optimisme et un pessimisme aussi vulgaires et irréfléchis l'un que l'autre, qui consistent à juger le monde d'après nos humeurs ou notre situation du moment. Tant qu'on est heureux, on voit tout en rose, et dès que surgit la moindre contrariété, on voit tout en noir. C'est dans ce sens que Bernanos disait que l'optimiste est un imbécile gai et le pessimiste un imbécile triste.

Ces deux erreurs opposées procèdent de la même absence de lucidité et du même penchant à tout rapporter à soi-même. Et c'est pour cela qu'elles se succèdent si facilement chez le même individu. J'ai connu un homme qui jouit longtemps d'une magnifique santé et dont les affaires marchaient à merveille. "La vie est belle", proclamait-il à chaque instant. Tous les malades lui paraissaient des gémisseurs et tous les malheureux des incapables. Mais le jour vint où il connut à son tour la maladie et les difficultés matérialles. Il sombra alors dans un pessimisme absolu, répétant sans cesse que le monde est mauvais et que la vie ne vaut pas peine d'être vécue.

Ce changement d'optique s'explique sans peine. L'homme qui, incrusté dans son bonheur personnel, reste aveugle et insensible aux maux des autres, se trouve le plus démuni à l'heure où l'épreuve s'abat sur lui: il devient tour entier la proie de ce mal qu'il n'avait su ni voir ni prévoir.

Ainsi après avoir été aveuglé par le bonheur au point de ne plus voir le mal qui l'entoure, l'homme est aveuglé par le malheur jusqu'à ne plus voir les biens qui lui restent. Car il n'y a pas ici-bas de mal absolu: quelle que soit notre épreuve, nous conservons toujours quelque chose---soit la santé physique, soit quelques ressources metérielles, soit l'affection de nos proches et, si nous avons tout perdu, l'espérance en Dieu et en la vie éternelle.

N'oublions pas en effect que notre paix intérieure dépend moins des événements eux-mêmes, que de notre interprétation des événements, suivant l'accueil que nous lui faisons, la pire catastrophe peut être pour nous une cause de désespoir comme un motif d'espérance. Je pense ici à deux hommes de ma région qui, pendant la dernière guerre, furent envoyés dans le même camp de concentration. L'un était croyant et l'autre athée. Le premier, découragé par l'épreuve, y perdit la foi; le second, éclairé par la souffrance, revint à la religion. L'événement était différent.

C'est dans cette ligne que se dénoue le faux problème de l'optimisme et du pessimisme. Il est également absurde de dire que tout va bien ou que tout va mal: ce qui nous est demandé, c'est de lutter sans relâche pour que tout aille mieux.

Fonte: Revista "Itinéraires" (Billets, 1er octobre 1976)

Observação: Uma excelente tradução desse texto para o espanhol pode ser encontrada no blog "sol y escudo". Recomendo esse blog pela qualidade dos textos e pelos comentários saborosos da autora, uma grande admiradora de Gustave Thibon.

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

Fundamento vital da liberdade

Paradoxo curioso: quanto mais enfadonhos e vazios são os "prazeres" que obtemos do pecado (e penso aqui de modo especial na luxúria), menos sabemos resistir às nossas paixões; quanto mais no desilude o nosso ídolo, mais fatal é a nossa escravidão. Mas isso só aparentemente é para admirar. O homem de prazeres mortos é demasiado pobre para ser livre. A sua vontade já não encontra, nos recursos amortecidos da sua vitalidade, o ponto de apoio, o tensor material indispensáveis para o seu exercício. A mesma ausência de tonalidade afetiva que faz incolores os seus prazeres, torna irresistíveis os seus impulsos. Aquele que julga pecar "fatalmente" (excetuo certos casos, hoje raríssimos de êxtase sexual), peca por ninharias. Um pecado verdadeiramente saboroso só pode ser um pecado profundamente escolhido. Este esfacelamento progressivo da voluptuosidade e da liberdade é, porém, a consequência normal da mecanização da humanidade. Também uma máquina é tão incapaz de escolher os seus movimentos como de neles experimentar prazer...

Fonte: "O pão de cada dia" - Editorial Aster - Colecção Éfeso

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

O erotismo contra o amor (II - Final)


No reino da ficção

Em primeiro lugar corresponde ao caráter artificial de nossa civilização. Em todas os aspectos de nossa atividade (alimentação, trabalho, ócio, etc.) se multiplicam cada vez mais as cortinas entre o homem e a natureza. O erotismo adota esse movimento: o manequim descarnado do cinema ou do cartaz publicitário é a continuação da flor de plástico, do vinho artificial ou do ócio dirigido. Tem um certo parentesco com as drogas. Em relação à sexualidade normal representa o papel de excitante e de calmante, pois, se por um lado fomenta costumes libertinos, por outro, apaga a insatisfação sexual desviando-a pelas sendas aparentemente inofensivas do sonho.

O erotismo se adapta também à atmosfera de facilidade que nos rodeia. O exercício normal da sexualidade implica sempre um mínimo de obstáculos e de responsabilidade. O impresso, a imagem, se absorvem sem esforço e sem risco. E cada um é convidado a esse festim ilusório. Tudo para todos na medida em que tudo se reduz a nada. Ao carecer de realidade, a sexualidade imaginária não tem limites. Tudo é possível, tudo é permito no plano dos sonhos e da ficção. No reino das imagens todo mundo é rei.

A ilusão de escapar da mediocridade

O pior é o afastamento e a degradação do instinto, do sentido de mistério e do sagrado que praticamente desapareceu do nosso mundo utilitário. Se pode, com efeito, falar de uma transcendência da sexualidade com respeito ao indivídio: Aqui encontramos essas afinidades entre o amor humano e o amor divino tão exploradas pelos escritores místicos. Os amantes sentem vibrar uma promessa misteriosa nessa atração que os aproxima de um ser distino e complementar: seu amor é antes de mais nada, a espera de uma revelação.

Os que são incapazes de receber essa revelação pelo amor, a buscam no erotismo. É a única saída para o desconhecido que resta aos homens cuja vida condicionada e incolor se desenvolve sem aventura e sem imprevistos sobre a terra e sem a esperança do céu. O erotismo lhes dá a ilusão de escapar de sua mediocridade e de seus limites. O infinito ao alcance dos cães, dizia Céline.

Sem levar isso em conta, é impossível compreender essa magia do erotismo e a atração que exercem todos esses falsos mistérios que movem-se ao redor de um verdadeiro mistério, esquecido e profanado. Como se houvesse algo de inédito nas revelações do erotismo sobre os gestos (normais ou aberrantes) do amor carnal! A antologia grega e a vida privada dos Césares esgotaram a questão. Mas se trata de um fenômeno irracional no qual a lógica e inclusive a evidência, nada podem. Baudelaire via aqui o sinal de decadência do animal religioso que se equivoca de ídolo.

Sinal de esgotamento

A religião do sexo começa a apresentar sérios sinais de esgotamento. Se consome a medida que liquida o velho capital de proibições e de pseudo-mistérios acumulado pelas gerações precedentes, no qual baseava todo o seu prestígio. Mais além do pecado e inclusive de toda ilusão, conduz à insignificância do sexo. O sexo entra dessa forma, no ciclo da economia de consumo. A mulher eterna e a a mulher fatal (Beatriz e Circe) se desvanecem simultaneamente: resta um passatempo, uma inclinação. Escutava recentemente em um lugar público a conversa de dois jovens. Falavam alternadamente de carros e de mulheres. O tom variava apenas (se tratava em ambos os casos de elegância de linhas e de resultados técnicos), com um pouco mais de seriedade quando se tratava dos carros. De fato, são mais caros e mais arriscados.

A exaltação do sexo leva em linha reta à desvalorização e ao desprezo do sexo. Não esse desprezo polêmico que os antigos ascetas usavam como uma arma contra as tentações fortes, mas o desprezo indiferente dos fastiados.

O amor pessoal frente ao erotismo anônimo

A conclusão se deduz por contraste. O problema sexual não se coloca ao nível do sexo, mas ao nível do homem, na orientação geral que dá ao seu destino, do qual o sexo não é mais que um elemento. E sua solução está no amor. Penso agora em uma carta de Bismarck enviada à sua jovem esposa que temia que este lhe fosse infiel: duvidas que casei com você para amarte? Esse "para" implica mais liberdade qualquer "porque"; sela, por uma exigência invariável do espírito, a promessa nascida da emoção fugaz dos sentidos; traduz a ardente paciência do escultor que extrai uma estátua do material fornecido pela carne e pela imaginação. O amor do casal personaliza a sexualidade: ata com um laço singular esta força cega e anônima. O erotismo imita o anonimato da natureza (que coisa mais impessoal que seu arsenal de receitas e imagens?), mas desnaturalizando-o pelos artifícios do espírito.

Não há nada de sagrado sem sacrifício, nem plenitude sem ascese. O amor dá um sentido e um fim à sexualidade, e ao mesmo tempo lhe impõe limites. Não se pode ir muito longe vagando em todas as direções: apenas o caminho estreito conduz ao país sem fronteiras. O erotismo atua no sentido inverso: suprime na aparência os limites da sexualidade e a priva, de fato, de sentido e de fim. É um beco sem saída, disfarçado em terra prometida, onde os aleijados da sexualidade e os subdesenvolvidos do amor buscam uma evasão e encontram uma maior escravidão.

sábado, 23 de janeiro de 2010

O erotismo contra o amor (I)


A névoa densa e malsã de erotismo em que se encontra imersa a civilização ocidental, nos lembra a neblina londrina nos piores dias do outono.

Nos livros, nos jornais, nos espetáculos, nas propagandas se observa a mesma escalada do sexo (embora fosse mais apropriado falar em descida do sexo), o mesmo desfile de relatos e imagens eróticas. Tudo tão aborrecido (dizia Camus) como a leitura de um manual de etiqueta. Essa saturação alcança um tal grau de estupidez e irrealidade que não é fácil encontrar um paradigma na história. Imediatamente vem à memória o pensamento de Tayllerand: "tudo o que é exagerado é insignificante". A inflação conduz à desvalorização. Esse exagero de vulgaridade nos deixa perplexos e sem forças para reagir. Não é em vão que se afirma que a tolice absoluta desarma. Só nos cabe a irrisão. O riso purifica. A Sabedoria Eterna disse que rirá no último dia.

Caricatura da sexualidade

Mas se o erotismo em si mesmo não merece mais que irrisão, representa também um perigoso sinal de alerta com respeito às realidades humanas que debilita e desnaturaliza. Devemos rir da caricatura e ao mesmo tempo chorar pela forma mutilada.

E aqui, a forma mutilada é a sexualidade humana que longe de ser como nos animais uma faculdade quase autônoma e dirigida por uma finalidade invariável (completar a parelha, procriar), se exerce em função de uma interpretação e de uma orientação onde entram em jogo todos os elementos da personalidade: imaginação, afetividade, vontade de poder, sentido estético e religioso, etc. O condenável do erotismo é que apele aos mais superficiais e baixos desses elementos para desviar a sexualidade de seus fins biológios e espirituais e de rebote degradar o homem inteiro fazendo-o escravo de um sexo-ídolo desvitalizado e desespiritualizado. Não se trata de cultivar o apetite sexual, mas de prostituir o ideal à carne.

O erotismo implica uma complacência do espírito nas coisas que dizem respeito à carne. O dicionário Larousse dá duas definições: amor enfermo e busca da sensualidade. Notemos que se trata de uma sexualidade representada mais do que vivida, de uma obsessão mais do que uma necessidade, de uma ficção enxertada sobre uma realidade.

Vitalidade ou artifício?

A que responde essa onda de erotismo no mundo contemporâneo? Se pode ver nisso um deslocamento pendular que segue o excesso de rigor de gerações precedentes. O jansenismo, o puritanismo, que consideravam inominável e inconfessável tudo o que se referia às obras da carne, foram fatos igualmente inéditos na história. Como um gás demasiado comprimido, esta sexualidade, a qual se havia negado um lugar no pensamento e na expressão, saltou suas barreiras e se estendeu por todas as partes.

Mas tudo o que havia de artificial e malsão no tabu transmitiu-se ao ídolo. Assistimos uma espécie de degeneração hipertrófica da sexualidade: o erotismo moderno procede da excitação mais que do vigor, do cérebro e dos nervos, mais do que da carne e do sangue. E seus exageros refletem uma impotência fundamental para assumir normalmente a realidade sexual. Se põe a sexualidade em todas as partes na medida em que se é incapaz de exercê-la no lugar que lhe convém. Relembrando a célebre frase de Pascal, um jovem filósofo canadense, Jacques Dufresne, escreveu que a sexualidade tem sua circunferência em todas as partes e o seu centro em lugar algum.

Páginas sem clorofila

A sexualidade normal gravita ao redor de dois polos: o apetite carnal e o amor espiritual. O erotismo atual é alheio tanto a um quanto a outro. Uma simples olhada na literatura e no conjunto de imagens eróticas é suficiente para mostrar o quanto estamos longe da efervescência vital. Com algumas exceções, essas obras em que se relatam todas as intimidades carnais, estão nas antípodas da sã vivacidade de um Aristófanes ou de um Rabelais. A esterilidade se alia à sexualidade: é a analogia literária do striptease com tudo o que tem de enfermo e de cálculo. Penso em certas novelas de inspiração psicoanalítica ou existencialista, nas quais se expõe numa atmosfera de conveniência, as vulgaridades mais baixas e tenebrosas da vida sexual. Quem ousaria falar aqui de inconstância e orgulho? Um peso mortal de fastio se imprime sobre essas páginas sem clorofila que recordam os cogumelos de outono, delgados e pegajosos, que pululam ao redor de um velho tronco apodrecido.

Fábrica de imagens

Teríamos que analizar aqui a importância desmesurada que as imagens adquiriram no psiquismo consciente e principalmente no inconsciente do homem contemporâneo. Não falo das imagens surgidas da fantasia criadora de cada um, mas das imagens fabricadas em série pelos técnicos da informação e da propaganda. Essas imagens são, para muitos homens, a primeira moldura da realidade e o ponto de comparação para apreciá-la. A atração ou o rechaço se sentem por uma imagem interposta. Sempre me lembrarei do comentário de um homem da cidade recém chegado a Chamonix, quando contemplava o Montblanc pela primeira vez: Bah! Eu já tinha visto pela televisão.

Se, como explica Platão no seu mito da caverna, o mundo sensível não é mais que um tecido de aparências, podemos dizer que demos um passo a mais para o irreal e que vivemos entre as sombras ao quadrado e entre reproduções de aparências. Em todos os campos o homem moderno se converte em um "voyeur" (uso de propósito esse termo tomado do vocabulário erótico), na medida em que se alimenta do espetáculo (raramente direto e quase sempre retransmitido) de coisas nas quais não participa ativamente por seu alheiamento ou por sua impotência. Penso agora nos inumeráveis turistas mais preocupados em tirar uma fotografia do que contemplar a paisagem.

O "voyeur" frustrado

Esta intoxicação alcança um ponto culminante no erotismo. O par clássico exibicionista/"voyeur" se dilata e se multiplica até o infinito mediante o papel impresso e as imagens. Todo o mundo sabe que a beleza física é ao mesmo tempo objeto de desejo e de contemplação. O desejo tende naturalmente à possessão, o qual tem a ver de forma predominante com o sentido do tato. A contemplação, pelo contrário, concerne unicamente ao sentido da visão. Simone Weil definia a beleza como um fruto que se olharia sem por a mão.

O "voyeur" confunde estes dois valores. Nele, a vista se converte em abastecedora do desejo: se desnaturaliza e, em último termo, se confunde com o tato. Não é reveladora a expressão popular "comer com os olhos"? Aqui aparece a diferença entre o nu estético e o erótico: o primeiro é a evocação da beleza, o segundo, a provocação de um desejo. Um desejo que quase sempre se consome no olhar.

Esta combinação bastarda conduz a uma dupla frustação. No aspecto contemplativo, pois o olhar ofuscado pelos vapores do desejo não pode captar a beleza em toda a sua pureza; e no aspecto sensual, pois o homem segue obcecado (até o exercício completo da sexualidade) por uma nebulosa de imagens inacessíveis que se interpõe entre seu desejo e o objeto possuído. A civilização da imagem democratiza o suplício de Tântalo. Aquele que adquiriu o hábito de comer com os olhos perde ao mesmo tempo a limpeza do olhar e o gozo da possessão. É um fato da experiência que o desenfreio erótico e a insatisfação sexual andam de mãos dadas. Por que o erotismo comercializado encontra tantos compradores? Não basta invocar a potência bio-psicológica do apetite sexual, pois o erotismo não concerne mais que indiretamente ao corpo e não aporta nada ao espírito. É mais no clima interior e exterior que impregna o homem moderno onde se há de buscar as razões desse êxito.

Continua ...

Fonte: Internet (Original em espanhol)
Tradução livre deste blogueiro

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

A informação contra a cultura (V - Final)


UMA CARICATURA DA CULTURA

O conjunto desses fatores tende a fazer da informação a caricatura e o substituto, eu diria inclusive a degeneração hipertrófica, da verdeira cultura. Está claro que o homem moderno, sobrecarregado e intoxicado por uma massa caótica de informações incontroláveis e inassimiláveis, vive cada vez mais em uma espécie de sonho acordado. O papel crescente que jogam as imagens nesse tipo de informação o submergem com efeito num universo que não tem maior consistência que um sonho. Boorstin, a quem já citamos antes, analisa admiravelmente essa substituição da imagem, quero dizer a imagem fabricada, estilizada com vistas ao rendimento publicitário, pela realidade dos fatos e dos seres. A ficção substituiu a realidade e a elimina. O sucesso da palavra "espetacular" (outro neologismo revelador) mostra bem do que se trata: nos estamos no espetáculo, um espetáculo em que as peripécias e os personagens estão preparados e disfarçados para nos seduzir. E para nos convidar a um "compromisso"(outra palavra da moda) tão ilusório como os papeis que se desempenham no palco. O "grande teatro do mundo" se converte assim em um teatro de marionetes; a imagem comanda sem discussão como nos sonhos; não temos mais, seguindo as palavras do abade Belay, que interpretar os signos, mas tão somente obedecer os sinais.

COMO RESISTIR?

Para concluir, nos limitaremos a recordar alguns meios de resistência à informação malsã. O problema surge nos planos individual e social.

No plano individual

Trata-se em primeiro lugar de ter em nós um filtro graças ao qual sejamos capazes de eliminar as informações inúteis, retificar as informações tendenciosas, ou em caso de dúvida, suspender nosso juízo. A cultura joga aqui um papel privilegiado. Um homem culto saber manter distância dos acontecimentos e propagandas a que é exposto. Ele os toma e os elimina como um organismo vivo. Tem o conhecimento suficiente da verdade para perceber e rechaçar a mentira, e se é cristão tem fé o bastante para estar isento de credulidade. Pois é um fato experimental que a credulidade é o destino dos homens sem fé. "Quando já não se crê em Deus, disse Chesterton, não é por não crer em nada, mas por crer em qualquer coisa". O autômato social que os americanos chamas de "yesman" (homens-sim) encarna esse tipo humano que, na falta de densidade interior e de raízes, obedece como um fio de palha aos sopros da opinião. Numa época como a nossa, a primeira palavra de sabedoria é saber dizer não.

No plano social

Mas nenhum indivíduo pode bastar-se por si mesmo, e a cultura, como a fé, necessita de um enbasamento social. Importa, antes de tudo, fazer frente às potências anônimas que dirigem a opinião, criar ilhas de resistência, grupos humanos cujos membros estejam concretamente unidos uns aos outros pela mesma fé e pelo mesmo ideal, que constituam barreiras contra a mentira e focos de difusão da verdade. No interior da cidade tecnocrática e totalitária (o "grande animal" de Platão) onde se reina pela força e pelo trejeito (Pascal), temos que restaurar a cidade fraterna em que circulam a verdade e o amor. Restaurar a cidade dos homens livres e associados, um meio social portador de valores eternos que estão acima do social, uma cidade temporal que, no lugar de esmagar os indivíduos sob seu peso, seja um lugar de passagem para a cidade de Deus.

MARCHAR... MAS PARA ONDE?

Este é o caminho que devemos seguir. Se fala muito hoje em dia de um mundo, uma sociedade, em marcha. Nos convidam por todos os lados a não estorvar essa evolução, e a nos associarmos a esse movimento. "A Igreja em marcha num mundo em marcha", foi o que li recentemente, escrito pela pena de uma personalidade católica, como sendo a expressão do mais alto ideal cristão. A única coisa que falta é que se esquecem de dizer aonde vamos. O fim não conta, basta o movimento. No que nos concerne, não nos negamos a andar, mas não podemos crer na virtude infalível do movimento como tal. Talvez não seja por acaso que na linguagem popular francesa o verbo marchar é sinônimo de enganar. Nos recusamos a andar por todos os caminhos e atrás de todos os rebanhos. Só marcharemos com a condição de conhecermos o objetivo e de que esse objetivo seja a verdade, o bem. Caso contrário, nos recusaremos a andar.

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

L'ordre et la liberté

A la suite d'un article où j'exprimais ma désapprobation à l'égard du climat de licence et de violence qui règne de plus en plus en France, un lecteur m'écrit les mots suivants: "Vous, les hommes de droit vous ne changerez jamais: vous préfererez toujours l'ordre a la liberté."

Cet argument étant devenu un slogan des milieux de gauche, je me permets d'y répondre publiquement.

Je ne préfère pas l'ordre à la liberté, ces deux choses n'en faisant qu'une à mes yeux. Il n'y a pas d'ordre sans liberté: un corps, par exemple est a'autant mieux ordonée que ses organes fonctionnent plus librement, chacun à sa place et dans ses limites. Réciproquement, il n'y a pas de vraie liberté sans ordre: dans un corps déréglé par une grave maladie, les organes sont gênés dans leurs fonctions, la digestion, la respiration ne sont plus "libres". Et c'est vrai aussi pour la société: imaginez une ville livrée à l'émeute et au pillage par la carence des "forces de l'ordre"; chacun y tremble pour ses biens et pour sa vie, n'ose plus sortir ni s'exprimer---personne n'est libre...

Cela étant, voici ma position. Je défends toutes les libertés, à condition qu'elles soient compatibles avec l'ordre. Une certaine gauche au contraire exalte et revendique toutes les libertés, même si elles doivent entraíner le désordre: grèves disloquant l'économie, manifestations tournant à l'émeute, agitation universitaire paralysant les études, publications et spectacles pornographiques avilissant le sexe, séparatismes provinciaux ébranlant l'unité nationale, libération de la contraception et de l'avortement menaçant la famille et la société, etc...

Mais qu'arrive-t-il en fait dès que cette subversion amène l'homme de gauche au pouvoir? Il n'est plus question alors de liberté: c'est l'ordre qui mobilise toutes les préoccupations des nouveaux maítres et un ordre plus rigoureux, plus inhumain que le précédent. Où en est le l'autre côté du rideau de fer, la liberté de s'exprimer, de s'associer, de réagir, contre le pouvoir par la grève ou des manifestations, d'enseigner une philosophie ou une religion non conforme à l'orthodoxie régnante? Peut-on rêver mieux en fait de subordination de la liberté à l'ordre?

En cela, à l'exception de quelques illuminés sincères qui seront balayés par l'ordre nouveau, les chefs révolutionnaires le savent bien. Ce qu'ils cherchent ce n'est pas la liberté, c'est le pouvoir---leur pouvoir. Ils ne font scintiller le mirage d'une liberté impossible que pour mieux étouffer les libertés réelles. La liberté, dans leur bouche, c'est l'appât sous lequel se dissimule l'hameçon du pêcheur, c'est le miroir aux alouettes qui attire les oiseaux dans le champ de tir du chasseur...

Ecoeuré par cette contradiction entre les promesses et les faits, des hommes de gauche loyaux et lucides clament aujourd'hui leur indignation. Parmi eux, Clavel, Revel et Etiemble. Ce dernier, après avoir attendu de la révolution russe, puis de la révolution chinoise la réalisation de son idéal socialiste, nous avoue son ultime déception: "Je ne m'intéresserai plus jamais à cette révolution chinoise dans laquelle j'avais mis mes derniers espoirs..."

Est-ce que tant d'expériences négatives ne suffisent pas? Est-ce que, dans nos pays occidentaux, les peuples hésiteront longtemps entre les démagogues qui préparent l'esclavage sous le masque trompeur d'une liberté chimérique et ceux qui luttent pour sauver les vrais libertés en les insérant dans un ordre conforme à la nature de l'homme? Entre ceux qui tendent un piège et ceux qui essayent d'ouvrir une issue?

Il reste cependant encore quelques idéalistes qui espèrent obstinément l'impossible. Témoin un article récent commentant le livre d'Etiemble et où l'auteur affirme sa foi dans "le vrai, le chaleureux socialisme des hommes contre le glacial socialisme de la bureaucratie." Je vois là une transposition de la foi et de l'espérance religieuses sur le plan social et politique. Ce lui qui croit en Dieu ne vacille pas sous les démentis de l'expérience: les triomphes apparents du mal ne l'ébranlent pas dans sa conviction que le bien absolu aura finalement le dernier mot, sinon dans le temps, du mois dans l'éternité. Selon le mot de l'Apôtre, "il espère contre l'espoir." C'est pour cela que la foi et l'espérance religieuses sont des vertus surnaturelles. Mais les options sociales et politiques relèvent de la sagesse et de l'expérience temporelles et leurs conséquences, positives ou négatives, se vérifient exclusivement en ce monde. "Le salut des âmes se fait dans le ciel, celui des cités se fait en ce monde", disait Richelieu. Que dirait-on d'un médecin qui, après avoir constaté cent fois l'effet nocif d'un remède, s'obstinerait à le prescrire sous prétexte qu'il y croit de toute son âme et que rien ne peut altérer sa foi? Les derniers croyants du socialisme à visage humain se comportent pourtant ainsi a l'égard du corps social. L'instinct surnaturel avorté nourrit les utopies antinaturelles...

Fonte: Revista "Itinéraires" (Billets, 13 août 1976)