sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

A informação contra a cultura (IV)


RAZÕES DA DEFORMAÇÃO

1- Por seu anonimato

A informação se dirige a todos e a ninguém. Ignora o diálogo: quem escreve ou fala se dirige a interlocutores invisíveis e mudos; a influência tem sentido único e funde todos os espíritos no mesmo molde. Kierkegaard se inquietava só de pensar que milhares de indivíduos liam todas as manhãs o mesmo jornal. Com o que fazia eco a Platão quando este dizia que a palavra escrita e posta ao alcance de todos, sem uma troca viva entre informador e informado, fazia proliferar a raça aborrecida e faladora dos falsos sábios, dos sábios de ilusões. Além disso, o anonimato, a impessoalidade da informação a arrasta quase fatalmente à degradação. Pois o denominador comum de uma multidão não se situa jamais em um nível superior, e nem sequer médio, e como consequência, aquele que busca a eficácia ou o sucesso, é obrigado a reduzir ao mínimo as exigências intelectuais e morais de seu ofício. É um fato, que se pode comprovar a cada dia, que a qualidade de um jornal está em razão inversa a sua tiragem. "A regra, é de ser compreendido pelo dono da marcearia", ouvi dizer uma vez o responsável por uma emissora de televisão. Desta forma o anonimato cria o divórcio entre a informação e a educação.

2- Por sua massificação

O número de informações é tal (o menor cidadão de qualquer país é informado de tudo o que se passa no universo) que o espírito é incapaz de assimilá-las e simplificá-las: ao se multiplicar, as informações se confundem ou se anulam umas as outras. "Quem muito abarca pouco aperta." Se pudéssemos ver dentro do cérebro do leitor ou do ouvinte médio, encontraríamos, ao invés de um saber estruturado, uma massa informe e instável de fatos e imagens.

O fato de não haver assimilação cria, como no diabetes, uma eliminação massiva e rápida: tudo passa e nada se fixa nesses espíritos fatigados na superfície e inativos na profundidade. O que não exclui o apetite: quanto maior a fome, mais débil é a assimilação. O homem que tem necessidade de seu jornal todas as manhãs, tanto ou mais do que seu próprio café da manhã, e se não o lê fica inquieto e desassossegado como um inseto privado de suas antenas, é o que menos se alimenta de seu jornal. Essa necessidade é da ordem do prurido e não da nutrição. E como nos comichões, a necessidade é tanto mais imperiosa e contínua quanto sua satisfação não é nenhum prazer.

3- Por sua mobilidade

Nos dão muita coisa para comer, mas não nos dão tempo para digeri-las. As notícias se anulam umas as outras, tanto por sua sucessão como por seu número. Já não estamos na escola, mas num cinema em que se assiste simultaneamente a projeção de vários filmes. Com isso se produz a erosão da memória viva, dessa faculdade de meditar, na qual Nietzsche via a condição essencial da inteligência e da cultura autêntica. Tudo se sucede sem deixar rastros; não há tempo de lembrar-se de nada: as informações, ao invés de se infiltrarem em nós, deslisam pela periferia de nosso ser, como uma chuva muito abundante sobre a superfície do solo. Assim se elabora o tipo do homem instantâneo e descontínuo (Max Picard), que na ausência de raízes cede docilmente a todos os impulsos dos acontecimentos ou da opinião. Daí procede o incrível servilismo das multidões em relação aos ídolos do dia (artistas, políticos, correntes de pensamento) e a não menos incrível rapidez com que esses ídolos passam sem deixar rastro. Quem se recorda das estrelas, dos campeões, dos entusiasmos coletivos do passado? A moda, com tudo o que essa palavra comporta de consentimento unânime e duração efêmera, é o produto específico da informação moderna. Lança-se um artista ou pensador como um novo medicamento ou um produto de beleza, e essa bolha de sabão, inflada em tempo recorde, se desvanece tão rapidamente como foi formada.

4- Pela ausência de escolha e hierarquia entre os acontecimentos que transmite

A verdadeira cultura é escalonada e seletiva. Numa informação qualquer, pelo contrário, tudo está no mesmo nível: o que vale a pena ser conhecido e o que nada se perderia por não conhecer. Abram um jornal qualquer: encontram-se nele com o mesmo luxo de títulos atraentes e fotografias evocativas uma reportagem sobre a vida dos monges ou sobre um grande escritor que acaba de morrer, uma outra sobre os amores ou o divórico de um artista e, um pouco mais longe, a narração de um crime crapuloso. Lembramos a previsão de Mistral de uma época em que "todas as plantas se confundirão numa única salada", e cada um poderá escolher, nessa mistura, o elemento mais rico em cores e sem substância que melhor satisfaça sua curiosidade ávida de falsos mistérios.

5- Pela lei da mistura

Dissemos que a verdadeira cultura implica a hierarquia e a unidade do saber. A informação odedece a lei oposta: a lei da mistura. O único valor que reconhece e que orienta sua escolha é o êxito material. O verdadeiro e o falso, o bem e o mal já não são critérios; o que importa é responder aos gostos da multidão. Não se trata de esclarecer a inteligência nem de elevar a alma, mas de distrair o espírito e excitar as paixões. Daí vem a complacência desta informação com respeito às curiosidades e apetites mais baixos, e esse esforço constante em busca do "sensacional", do "inédito", mesmo ao preço do exagero e da mentira. É preciso que a oferta corresponda à demanda, e mais: que antecipe e suscite essa mesma demanda. Isto leva a deformar, a exagerar os fatos, e até mesmo inventá-los do nada. Boorstin analisou de maneira notável essa exploração do "pseudo sucesso" pelos informadores da imprensa e da televisão. De um fato autêntico, só retem-se o lado mais superficial, mais provocante (quase sempre o mais superficial), se evoca tudo o que se poderia deduzir desse fato, e o interpretam em função dos desejos e angústias da multidão (a informações é a grande responsável pelas neuroses coletivas). Criam-se "suspenses" imaginários como no cinema; a nudez dos fatos desaparece sob o véu dos comentários. E se o acontecimento não for suficiente, eles fabricam um, geralmente com o uso do tempo condicional: "O presidente X havia dito..." ou ainda, "Tal observação astronômica seria o sinal de uma supercivilização, distante cinco milhões de anos-luz..., etc."

Uma tal informação, faz um papel de narcótico com relação ao pensamento, e de um excitante com relação a imaginação. Anestesia nossa consciência para melhor nos entregar aos mecanismos do sonho. É muito significativo, por outra parte, comprovar que este abuso da busca pelo "inédito", pelo "extraordinário", pelo "formidável", leva em linha reta à inanição e a insipidez. "Tudo o que é exagerado é insignificante", dizia Talleyrand. O que há de menos inédito e mais banal do que essas revelações ruidosas, esses "segredos", essas "confidências", divulgadas em milhões de exemplares, essa exploração do escândalo que gravita ao redor do erotismo e do crime, duas realidades psicológicas muito pobres e que não podem nos revelar outra coisa além de sua nulidade, "o aborrecido espetáculo do pecado mortal", como dizia Baudelaire? Aqui, como em tudo, a inflação provoca a desvalorização e o aborrecimento se agrava com todos os esforços que se fazem para fugir dele. Sem substituir os alimentos, transformam o uso dos tóxicos, numa necessidade.

6- Por ser um instrumento das potências financeiras e políticas

Em fim, a informação se opõe radicalmente à verdadeira cultura no sentido de que é o instrumento ideal das potências financeiras e políticas, que se servem dela para arruinar nossa liberdade interior. Não precisamos mais do que recordar tudo o que se tem dito sobre a violação das multidões, as técnicas de aviltamento, etc. A propaganda é a mais fácil e a mais eficaz das tiranias, pois deixa suas vítimas com a ilusão da liberdade. O martelo publicitário substitui a relexão pelo reflexo. O homem consciente e livre pode reagir sempre contra a pressão exterior, o fantoche obedece espontaneamente e infalivelmente aos mãos que controlam suas cordas. O processo de degradação do vivo em mecânico, analisado por Bergson, se realiza aqui a fundo.

Continua ...

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

Le relatif et l'absolu

La condition terrestre de l'homme est inconfortable. Par le fait de notre idéal, nous sommes irrésistiblement attirés par l'absolu et la perfection, et par le fait de notre faiblesse, nous sommes sans cesse condamnés à vivre dans la relatif et l'imperfection.

Quel est l'homme qui, en embrassant une profession ou en épousant une femme, n'a pas rêvé d'une réussite éclatante dans son métier ou d'un bonheur sans mélange dans son foyer?

Mais la vie, avec son cortège de difficultés et d'échecs, ne tarde pas à dissiper ces illusions.

Je causais récemment avec un jeune médecin qui était entré dans la carrière avec l'ardeur d'un apôtre: "Quelle déception, me disait-il. Des malades qui demandent des miracles et qui ne sont pas même capables d'observer un régime, sans parler de la paperasserie qui fait de moi un fonctionnaire de la Sécurité Sociale. La médecine est vraiment le dernier des métiers."

Peu de temps avant j'avais reçu les confidences d'un jeune époux qui, dans les années qui précédèrent ses fiançailles, s'était longuement nourri d'un livre de Gertrude von Le Fort, intitulé "La femme éternelle", dans lequel l'auter trace un portrait idéal de la nature féminine. "Comme ma femme ressemble peu à ce portrait, sospirait-il. Si j'avais su cela, je ne me serais pas marié."

De telles déceptions conduisent en général à deux réactions contraires.

Ou bien l'homme renie son idéal primitif et s'enlise dans la médiocrité quotidienne, dans un train-train professionnel et familial sans profondeur et sans horizon; il rentre, comme on dit vulgairement, "dans ses pantoufles".

Ou bien il conserve son idéal, mais au lieu d'essayer de l'incarner dans l'existence, il ne s'en sert que pour dénigrer la réalité; il adopte une attitude d'isolement et de défi. C'est le cas de certains idéalistes qui, selon Péguy, "ont les mains pures, mais n'ont pas de mais".

Nous devons dominer cette alternative: "La perfection n'est pas de ce monde", proclame la sagesse populaire. Cette évidence ne doit nous conduire ni à renoncer à la perfection, ni à désepérer du monde. Et l'Evangile nous livre la clef de l'harmonie entre notre besoin d'absolu et notre faiblesse. Le Christ nous dit: "Soyez parfait comme votre Père céleste est parfait", mais il nous avertit aussi que l'ivraie et le bon grain ne seront jamais ici-bas complètement séparés et qu'en voulant arracher trop vite l'ivraie, on court le risque d'arracher en même temps le bon grain...

Le double devoir e l'homme consiste donc d'une part, à ne jamais cesser de poursuivre la perfection et, de l'autre, à se résigner à ne jamais l'atteindre. Notre idéal est l'étoile qui doit diriger notre marche, ce n'est pas une fleur qu'on puisse cueillir au bord du chemin. Et notre tâche ici-bas est de travailler sans répit à notre perfectionnement, afin de mériter la perfection absolue qui nous sera donnée dans la vie éternelle.

Fonte: Revista "Itinéraires" (Billets, 4 mars 1977)

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

A informação contra a cultura (III)


A SEPARAÇÃO DOS DOIS ASPECTOS DO SABER

Vamos agora tentar descobrir por quais razões esses dois aspectos do saber se distanciaram.

Em primeiro lugar, porque a instrução adquiriu cada vez mais um caráter utilitário, cujo maior sintoma é a corrida aos diplomas. A verdade, primeiro objeto da inteligência, não é um meio mas um fim. E na medida que se faz dela um meio, a instrução se degrada e se separa cada vez mais da cultura. Em seguida, por causa do caráter impessoal em que a instrução é oferecida em tantos estabelecimentos escolares anônimos e sobrecarregados. A rigidez dos programs que se dirigem a todos e a ninguém, a dificuldade do contato humano e do diálogo entre o professor e o aluno em classes demasiadas cheias, contribuem (quaisquer que sejam a competência e a boa vontade dos professores) para desumanizar a instrução e separá-la da cultura.

Em definitivo, é a busca do "ter" sem se preocupar com o "ser", a busca do objeto do conhecimento sem levar em conta o sujeito que conhece, que aprofunda o fosso entre a instrução e a cultura. Semeamos sem preparar a terra, distribuímos o alimento intelectual sem nos preocuparmos com o estado do estômago dos convidados. E, no entanto, parece que a primeira condição para uma boa digestão é fazer coincidir a fome com a alimentação...

Não se sabe conciliar o novo saber com o saber interior, o saber abstrato com o saber experiemental. Se esquece que o cérebro da criança que vai à escola não é cera virgem: possuiu todo um capital interior de sensações e conhecimentos que o educador não tem o direito de negligenciar. E a arte da educação consiste em unir, com exemplos bem escolhidos, a fórmula livresca com a experiência vital, o saber fundado sobre a idéia com o conhecimento que procede da imagem. O educador deve ampliar e retificar a experiência da criança: jamais deve negar-la ou menosprezá-la.

Não resisto ao prazer de citar este texto de Maurice Barrés que descobri recentemente e que se refere precisamente ao nosso assunto. Falando das almas das crianças ele diz: "Passando por essas almas, ainda sem muita memória, as imagens do universo tomam uma inocência e uma juventude divina. Se a serenidade da ação caracteriza os deuses, é a serenidade na agitação que caracteriza as crianças. Se apaixonam conservando o frescor da ingenuidade. Esses pequenos inocentes têm sempre o justo acento; suas palavras, seus gestos, todo seu corpo tão frágil se move com cadência. Educar trata-se de alimentar esta disposição natural, de usá-la sem deformá-la, de substituir pouco a pouco a propensão instintiva por um destino determinado, de fazer essa propensão individual participar da sinfonia social."

É uma desgraça, uma perda irreparável, se uma criança em desenvolvimento sai de sua própria verdade, muda seu canto natural por um canto aprendido: se se transforma um ser artificial, num homem-mentira. Encontramos muitos homens-mentira pela vida, jamais dizem o que verdadeiramente sente; pensam, ou melhor, crêem pensar, coisas que lhes são estranhas, que saíram fora de sua consciência. Esses homens-mentira podem ser escritores, pois existem poucos livros nos quais se possam distinguir uma verdadeira sensibilidade. São muito numerosos na vida mundana, a qual transformam numa coisa insuportável; os salões estão cheios de homens e mulheres que se atribuem de boa fé gostos e aversões que jamais foram os seus.

Todo o abismo que separa a instrução da cultura encontramos nestes parágrafos de Simone Weil:

"Se acredita ordinariamente que uma pessoa de nossos dias, aluno de uma escola primária qualquer, sabe mais do que Pitágoras porque repete docilmente que a Terra gira ao redor do sol. Mas na realidade, essa pessoa não olha para o céu e nem para as estrelas. Esse sol do qual se fala na sala de aula não tem para ele, nenhuma relação com o que ele vê.

O que hoje se chama de instruir as massas é tomar essa cultura moderna, elaborada num meio de tal maneira fechado, de tal maneira tarado, de tal maneira indiferente à verdade, suprimir tudo o que ainda possa conter de ouro puro, operação que se chama vulgarização, e embutir o resultado na memória dos infelizes que desejam aprender, do mesmo modo que damos alpiste para os pássaros."

A INFORMAÇÃO QUE DEFORMA

Passemos agora à informação propriamente dita, quer dizer, à instrução referente aos acontecimentos quotidianos. Voltamos a nos encontrar com todos os defeitos que analisamos precedentemente, levados a suprema expressão pela potência e universalidade dos meios de difusão.

É preciso afirmar, em primeiro lugar, que a falta de cultura basta para esterilizar os dados da informação. O relato de um fato, tomado em si mesmo, não significa nada se este fato não for conectado a um conjunto de conhecimentos que permitam situá-lo e avaliá-lo. "Só existem grandes acontecimentos para os espíritos pequenos", dizia Paul Valéry. O homem sem cultura, levado pela informação a um labirinto de acontecimentos, carece de um fio condutor para situar-se nesse turbilhão de notícias que o jornal, o rádio e a televisão derramam sobre ele todos os dias.

Um tornado no Arkansas, que sentido pode ter para aquele que desconhece a geografia dos Estados Unidos? A fome na Índia, não é mais do que um fato sem peso e sem raízes para quem ignora as condições sociológicas, demográficas e políticas, que fazem da fome um fenômeno endêmico nos países do Oriente. A viagem do Papa à Jerusalem ou à Bombaim, não é verdadeiramente um acontecimento, a não ser que se conheça o que representa a religião católica; senão, seja qual for o tamanho dos títulos e a quantidade de imagens visuais ou sonoras, esse acontecimento não terá maior importância real que mil outros acontecimentos anunciados com o mesmo alvoroço. Eu tenho visto homens que tratam com o mesmo interesse superficial e a mesma indiferença profunda, as imagens da viagem de Paulo VI a Bombaim e imagens das férias de Brigitte Bardot no México. A informação presupõe cultura; não pode, em nenhum grau, substituí-la.

Continua ...

sábado, 9 de janeiro de 2010

La matière et l'esprit

Les hommes diffèrent les uns des autres par la race, la nationalité, la classe sociale, les opinions politiques, etc... Cette diversité---qui par elle-même est un bien comme celle des organes et des fonctions dans un corps vivant---tourne trop souvent, par l'effet de l'égoïsme et de l'orgueil, à la séparation et au conflit. L'histoire regorge du récit de ces luttes entre les races, les nations, les classes et les partis.

La division entre les travailleurs manuels et les travailleurs intelletuels, sans avoir donné lieu aux mêmes violences, est également un facteur de séparation très important.

Trop souvent ces deux groupes restent isolés l'un de l'autre et se méconnaissent réciproquement.

Beaucoup d'intellectuels considèrent les manuels comme des éléments inférieurs de la hiérarchie sociale.

Et les manuels réagissent soit en constestant la valeur ou la difficulté du travail intellectuel (tu te la coules douce, me disait un jour un camarade d'enfance, ouvrier agricole: tu travailles sans quitter ta chaise...), soit en voulant à tout prix orienter leurs enfants vers des fonctions intellectuelles qu'ils considèrent comme une promotion sociale absolue.

L'optique faussée d'une certaine opinion publique a longtemps entretenu cet état d'esprit. Je me souviens d'un instituteur d'une commune rurale qui disait aux plus intelligents de ses élèves: "vous, vous ne resterez pas des paysans comme vos parents". Et aux autres: "vous méritez bien de rester des paysans". Comme si le métier d'agriculteur n'exigeait pas au moins autant d'intelligence et de sagacité que celui d'employé ou de fonctionnaire.

En réalitté, rien n'est plus factice et plus arbitraire qe cette opposition entre les deux grandes brances de l'activité humaine.

Le travail manuel, qui consiste à transformer la matière pour l'adapter aux besoins et aux goûts de l'homme, est toujours inspiré et guidé par l'intelligence: les mains exécutent, mais l'esprit commande.

Réciproquement, il n'existe pas d'activité intellectuelle à l'état pur. Les travaux de l'esprit comportent toujours un côté matériel---ne serait-ce que le dressage des automatismes de la mémoire---et il arrive souvent que celui-ci l'emporte sur le côté spirituel. Il y a plus d'esprit, dans le sens d'activité spontanée et créatrice, chez tel artisan attentif à améliorer sans cesse sa production matériale que chez tel professeur qui répète mécaniquement les mêmes leçons pensant des années...

"Il n'y a pas de sot métier" dit la sagesse populaire. Loin de s'opposer les travaux du corps et les travaux de l'esprit se completent et ils sont égaux en dignité. Ce qui mérite d'être loué ou méprisé, ce n'est pas la nature du travail auquel on se livre, c'est la bonne ou la mauvaise qualité de se travail.

Fonte: Revista "Itinéraires" (Billetes, 10 juin 1977)

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

A informação contra a cultura (II)


ABORDANDO O MISTÉRIO

Em última análise, a cultura se caracteriza por um aprofundamento da ignorância. O homem culto não é o homem que resolve, ou que acredita resolver, os problemas, mas é o que escavando os problemas, vê estender-se até o infinito o mistério que os recobrem.

Para o espírito primário não existe mistério, mas somente problemas. É um espírito que acredita que a margem do desconhecido que ainda subsisti na natureza desaparecerá pouco a pouco, na medida em que a ciência progrida. Mas para o homem culto, não existe apenas o desconhecido, mas também o incognoscível, e quanto mais avança no conhecimento das coisas, mais vê espessar-se o mistério, e sabe cada vez mais que não sabe nada, pois a realidade suprema não é acessível à inteligência discursiva.

Os cérebros eletrônicos resolvem todas as questões mas são incapazes de formular alguma. O próprio da inteligência e da cultura é saber interrogar, além de todas as soluções humanas, sobre o mistério da natureza e do destino.

A debilidade da instrução livresca está em apresentar aos homens soluções prontas, antes de que estes estejam em situação de se colocarem pessoalmente os problemas.

Vocês conhecem a origem da vocação de Sócrates. O oráculo havia proclamado que Sócrates era o mais sábio dos homens. Ele achou estranho, pois era consciente de sua ignorância. Mas persuadido de que o oráculo não poderia mentir, se dedicou a interrogar todas aqueles que se vangloriavam de sua ciência, e se deu conta de que aqueles homens, que acreditavam saber muitas coisas, na realidade não sabiam nada. Sócrates concluiu que o oráculo havio dito a verdade, pois ele sabia pelo menos que nada sabia.

Essa tomada de consciência da ignorância é essencial à cultura.

A cultura aparece assim como uma criação contínua enquanto que a instrução não é mais do que um inventário superficial. E para ressaltar esta diferença, voltamos a falar da distinção clássica de Gabriel Marcel, entre o problema e o mistério. A instrução consiste em resolver problemas que se criam fora, a cultura em participar interiormente de um mistério. Acrescentamos que a instrução se atem ao ter, enquanto que a cultura se une ao ser.

O TER E O SER

Já apliquei à instrução a palavra "bagagem"; se poderia aplicar à cultura a palavra "alimento". A bagagem concerne unicamente ao ter: nosso corpo não varia segundo o número e tamanho de nossas malas, mas se transforma segundo a qualidade de nossa alimentação. Do mesmo modo, a verdadeira cultura transforma o corpo do homem que a possui: é "ter" assimilado, digerido, e por isso, se transforma em "ser".

É a diferença que assinalava Montagne entre a "cabeça cheia" e a "cabeça bem feita". É alimentar-se não para encher ou para engodar, mas por apetite. A cultura não é somente um acréscimo externo; é um alimento que desenvolve e aperfeiçoa o sujeito que o assimila, e com isso se distingue perfeitamente da instrução. Lembremos da célebre frase de Edouard Herriot: "A cultura é o que sobra quando se esqueceu de tudo." É o que sobra quando os elementos externos da instrução (fatos, datas, fórmulas, citações, etc.) se foram do nosso espírito. É precisamente esse aprofundamento do ser interior, essa capacidade de reflexão e de crítica, esse apetite que nos permite receber e digerir novos alimentos. Mas para muitos homens instruídos, podemos aplicar a fórmula do antigo prefeito de Lyon e dizer que a cultura é o que falta quando já se aprendeu tudo. É o exemplo que nos dão tantos eruditos que sabem tudo e não entendem nada.

O tipo humano que corresponde ao que o século XVII chamava "um homem de bem", o "humanista" de hoje, é precisamente o homem culto no sentido que acabamos de definir. O homem no qual o saber, integrado em uma experiência vivida, é a expressão e prolongamento de seu ser. E é pelo número e pela influência de tais homens que podemos reconhecer a verdadeira civilização: aquela que consiste não apenas no domínio das coisas pela técnica, mas no florecimento dos espíritos e das almas através da sabedoria.

Continua ...

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

Illusion et vérité du dialogue

Péguy disait que lorsqu'un mot devient à la mode, c'est que la réalité qu'il désigne est en voie de disparition.

Faut-il appliquer ce dur diagnostic à la vogue dont jouit actuellement le mot de dialogue? En fait, on multiplie les consultations, les concertations, les carrefours, les tables rondes, etc., et les incompréhensions, les dissensions entre le individus, les groupes, les classes sociales et les nations n'en restent pas moins aussi virulentes que tenaces.

Qu'est-ce que le dialogue? Le dictionnaire répond: conversation entre deux ou plusiers personnes. Mais le sens qu'on donne aujourd'hui à ce mot implique quelque chose de plus: il ne s'agit pas de n'importe quelle, conversation (par exemple sur pluie et le beau temps), mais d'un échange de points de vue en général divergents, dont le but est d'aplanir les difficultés, de dissiper les équivoques et, à la limite, d'aboulir à une entente. Tels sont---ou devraient être---les dialogues entre les représentants des classes sociales, des Etats o des Eglises---et même à une échelle plus humble, entre les membres d'une même famille ou d'une même entreprise...

Cela dit, d'où vient que la plupart de ces dialogues restent frappés de stérilité et que le flux des paroles échangées par les partenaires achevè de creuser le fossé qu'en principe il devrait combler?

"Je discute sans fin avec ma femme, me disait récemment un époux d'un couple mal assorti, mais plus on s'explique, moins on se comprend." Cela m'a rappelé le mot d'un romancier contemporain: "il n'y a qu'un moyen de s'entendre: c'est de s'entendre." Ce qui signifie: si l'on ne se comprend pas sans parler, toutes les paroles ne ervent à rien.

L'échec du dialogue tient aux raison suivantes:

1) L'absence d'attention aux propos des partenaires. Rares sont les hommes qui savent vraiment écouter. Dans la plupart des conversations, chacun ne prête qu'une oreille distraite aux discours des autres et n'attend que l'occasion de placer son mot. Dialogue de sourds qui se réduit à un chassé-croisé de monologues...

2) L'égoïsme et l'orgueil quand le dialogue porte sur des divergences d'opinion et d'intérêts. On est sûr à priori qu'on a raison et que le prochain a tort; on dialogue comme on se bat, avec cette différence que les paroles, moins péremptoires que les armes, ne font ni vainqueurs ni vaincus---ou plutôt elles ne font que des vaincus, car personne, au terme de ces duels oratoires, n'a avancé d'un seul pas vers la vérité. Dans les discussions politiques par exemple, il ne s'agit pas d'échanges, mais d'affrontement; on riposte aux arguments de l'adversaire comme on repouse une attaque ennemie; on cogne (verbalement) "comme un sourd"---et le pire de tous les sours, celui qui ne veut pas entendre...

3) La méfiance à l'égard de l'interlocuteur. On est intimement persuadé, non seulement qu'il se trompe, mais qu'il n'use du dialogue que pour nous tromper; on suspecte à la fois la vérité et la sincérité de ses arguments, on flaire partout la ruse de guerre---bref, la discussion est dominée par le souci de ne pas "se laisser avoir" et non par la recherche d'un terrain d'entente. Attitude, hélas! trop souvent justifiée par la déloyauté de l'un, de l'autre ou de l'ensemble des partenaires, mais qui n'apporte aucune solution aux problèmes.

Est-ce à dire que tous les dialogues sont négatifs? Pas du tout: il suffit, pour que le dialogue soit sécond, d'écarter les obstacles que je viens d'énumerer. Ce qui signifie:

D'abord savoir écouter. Au lieu de s'enfermer dans sa propre opinion, savoir discerner la part de vérité contenue dans l'opinion des autres. Se persuader que le but du dialogue ne consiste pas uniquement à se défendre contre l'interlocuteur, mais à apprendre quelque chose de lui et que les informations et les idées qui semblent contredire les nôtres, le plus souvent, les complètent. Etre accueillant et transparent aux propos du prochain.

Ensuite passer au crible d'une réflexion objective les arguments partiels et partiaux qui nous sont inspirés par nos intérêts de personne, de groupe ou de parti. Un dialogue ne doit pas être un duel, mais un effort en commun. Ne pas avoir peur de se laisser convaincre si le partenaire a raison. Dans convaincre, il y a vaincre, disait Alain. Mais il n'est pas de plus belle victoire que d'être vaincu par la vérité.

Enfin, là où l'on se heurte à la mauvaise foi de l'interlocuteur, ne pas le suivre dans cette voie sans issue et lui donner l'exemple de la loyauté. Refuser d'être dupe n'implique pas la nécessité d'être trompeur.

C'est seulement à ce prix que le dialogue cesse d'être un verbiage inutile ou une manoeuvre de guerre froid pour devenir, si j'ose employer un autre mot prostitué par la mode, effectivement constructif.

Fonte: Revista "Itinéraires" (Billets, 9 juillet 1976)

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

A informação contra a cultura (I)


DISTINÇÕES

A informação (palavra muito recente no sentido em que é usada hoje em dia) abarca as resenhas e as notícias que nos chegam pelos jornais, pelo rádio, pela televisão, etc. Pode-se defini-la como uma instrução limitada aos acontecimentos atuais.

Quais são as relações entre essa classe de instrução e a cultura?

Para responder essa questão é necessário analisar as diferenças que separam a instrução em geral (tal como se dá hoje em dia) da verdadeira cultura.

O dicionário, nesse caso, não nos ajuda muito, já que as duas definições são quase idênticas: cultura e instrução significam aquisição de conhecimentos.

É certo que tanto na instrução como na cultura há aquisição de conhecimentos. Mas esses conhecimentos não se situam no mesmo nível do espírito. Uma pessoa pode ser muito culta sem ser muito instruída, e pode ser muita instruída sem ser culta. Mais precisamente, toda cultura implica um mínimo de instrução, mas a recíproca não é verdadeira: pode-se ter muita instrução e não ter cultura alguma. É possível ser erudito ou "sábio" de uma maneira puramente mecânica e por efeito de uma doutrinação puramente externa. Fala-se frequentemente que um cachorro é sabido ou inteligente, mas ninguém ousa dizer que um cachorro é culto!

A instrução com relação a cultura é completamente extrínseca, e não é nada mais que uma acumulação de conhecimentos; não implica necessariamente a participação intríseca. Acrescentamos que na instrução o papel essencial é da memória, faculdade em grande parte material.

Se não se trata mais do que memória, um aparato registrador qualquer, um gravador, um disco, possui essa faculdade em seu grau máximo.

É claro que um cérebro eletrônico possui muito mais memória que um homem (e consequentemente mais instrução), visto que chega a resolver problemas que exigiriam a colaboração de milhares de cérebros humanos.

A cultura é outra coisa. Implica não só o conhecimento do objeto mas a participação vital do sujeito. Recordemos que a etimologia da palavra (colere, cultivar) evoca a agricultura. Uma terrra que se cultiva colabora com a germinação e crescimento dos grãos. Há participação da terra na transformação dos grãos em plantas.

A instrução, como tal, é tão estranha à vida profunda do homem, que usamos na maior parte das vezes termos materiais para designá-la. Falamos, por exemplo, da "bagagem intelectual" que queremos dar a nossos filhos, o que indica muito bem o caráter extrínseco da instrução. Nesse mesmo sentido, falamos em "encher a cabeça". Muitos estabelecimentos escolares não têm outro sistema pedagógico além desse, e neles, a formação humana dos alunos é sacrificada a esse tipo de "inchaço cerebral".

Aparece assim uma primeira diferença: a instrução é extrínseca, a cultura é intrínseca. Em outras palavras, diremos que a instrução é impessoal e a cultura é pessoal, quer dizer, integrada à vida peculiar do indivíduo.

Talvez haja a mesma diferença entre o homem instruído e o homem culto que entre o geógrafo e o explorador. O geógrafo conhece maravilhosamente o mapa e todos os lugares que estão nele marcados: cidades, montanhas, rios, oceanos, etc. O mapa não é mais que um decalque abstrato e impessoal das paissagens terrestres. O explorador visitou os lugares; talvez tenha conhecimentos menos extensos que o geógrafo, pois não foi possível a ele visitar todos os territórios indicados no mapa, mas de todos os lugares que percorreu guarda um conhecimento saboroso, particular e direto, que nasceu e morrerá com ele.

A instrução, como tal, não comporta diferenças de nível (ou se sabe, ou não se sabe), ao passo que a cultura é suscetível de um aprofundamento indefinido. Por exemplo: saber de cor um verso de Racine é típico da instrução, mas meditar sobre esse verso e encontrar em cada leitura novas ressonâncias interiores é o que caracteriza a cultura. O homem culto é o que estabelece entre os dados da instrução relações pessoais e inéditas. Era isto a que se referia Paul Valéry quando falava que preferia ser lido sete vezes pelo mesmo homem do que ser lido uma só vez por sete homens.

A cultura se aprofunda ao passo que a instrução não pode mais que estender-se. É por isso que podemos falar de uma cultura profunda e não de uma instrução profunda, mas apenas de uma intrução extensa.

A instrução se refere à superfície do saber, a cultura à sua espessura.

Um professor de filosofia me dizia um dia estas palavras que ilustram bem a diferença que acabamos de estabelecer: "os temas que expomos nas aulas de filosofia eram para seus autores realidades vividas; para nós, professores, não são mais que idéias e, para os alunos, não são mais que palavras."

Acrescentamos que a instrução se refere ao número, a quantidade de conhecimentos. Acontece muitas vezes da "bagagem" de um homem intruído ser ao mesmo tempo demasiada pesada e demasiada leve: pesada de memória e leve de reflexão, cheia de palavras vazias e vazia das realidades designadas pelas palavras. A cultura é o antídoto contra essa enfermidade da instrução que se chama verbalismo.

EXATIDÃO OU VERDADE?

É preciso neste ponto dissipar a confusão que existe ao redor da palavra "primário".

Ser primário, não é ter feito apenas os estudos primários, mas é, qualquer que seja o grau de instrução, confundir a realidade das coisas com as fórmulas pelas quais as designamos. É por exemplo, o caso de um determinado cientificismo que imagina ter esgotado uma realidade, uma vez que mediu e catalogou os aspectos quantitativos. É a postura que trata o mistério como uma ignorância passageira.

Victor Hugo definia as pretensões desse cientificismo em uma fórmula admirável: "o preço exato pela verdade". O exato é apenas o aspecto mais superficial da verdade. Infelizmente, a linguagem moderna, que traduz os progressos inconscientes do cientificismo em nosso pensamento, tende cada vez mais a confundir esses dois termos. Geralmente dizemos "é exato", quando queremos dizer "é verdade". Mas se queremos sondar o abismo que separa o exato do verdadeiro, tratemos de transpor essa linguagem para certos domínios do pensamento ou do sentimento. Imaginem um crente dizendo: Deus é a exatidão, no lugar de: Deus é a verdade. Ou uma jovem respondendo a um jovem que acaba de lhe declarar seu amor: É exato que me amas?

Continua ...

Fonte: Conferência proferida em Laussane (18 de abril de 1965).

Tradução livre deste blogueiro.